terça-feira, 15 de outubro de 2013

TDAH: atividade física pode trazer melhoras no desempenho escolar











A criança que é avoada, esquecida, estabanada, que não para quieta, é impulsiva e inquieta pode fazer parte das estatísticas que indicam que 5% da população infantilmundial padece do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Com repercussões na vida social e escolar, o TDAHpode ser tratado com medicação, acompanhamento multidisciplinar composto por médico, psicólogo, terapeuta ocupacional e também atividade física, já que pesquisas têm apontado que o exercício pode ajudá-las a melhorar a concentração e a funçãocognitiva.

Viviane Grassmann Marquesm, profissional de educação física e doutoranda em Biologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), tem voltado seus estudos justamente ao tratamento desse transtorno. “Faço atividades físicas com crianças para melhorar o TDAH. A literatura científica indica que o exercício físico libera dopamina e noradrenalina, substâncias que essas crianças têm em menor quantidade”, conta.

Viviane trabalha por seis meses com crianças que não fazem uso de medicação e avalia as mudanças no comportamento. Embora a medicina tenha avançado bastante, a classe médica ainda se divide quanto ao uso de remédios à base de Metilfenidato (dos quais Ritalina® é o mais popular), que prometem melhorar a qualidade de vida e o desempenho escolar dos portadores de TDAH, mas que apresenta efeitos colaterais desagradáveis, como depressão, perda de apetite, insônia, entre outros e que fazem com que seu uso seja visto com cautela por alguns médicos.

Dr. Marcelo Gomes, Diretor Médico da Área Terapêutica da Novartis, fabricante da Ritalina®, explica que cada caso é um caso e, por isso, o uso do medicamento deve ser avaliado individualmente. “O diagnóstico é clínico, não depende de exames e, pela formação, os médicos mais indicados são o neurologista, o neuropediatra e o hebiatra. A escola não está apta a dar o diagnóstico do TDAH”, ensina o médico.

A pesquisadora do Departamento de Psicobiologia da Unifesp, Dra. Silmara Batistela, explica que a Ritalina® é a primeira escolha de medicação e, quando o tratamento com a droga é feita com o acompanhamento médico e da forma correta, as respostas são excelentes e com melhora considerável. “É importante frisar apenas que o TDAH não tem cura e o medicamento é de efeito agudo, ou seja, trata os sintomas.”

Não é psicológico


TDAH é uma disfunção neuropsiquiátrica, pois afeta a região do córtex pré-frontal do cérebro, fazendo com que o paciente apresente manifestações comportamentais. Embora seja comum na infância, é um transtorno no qual entre 50 a 60% dos pacientes apresentam sintomas ainda na vida adulta.

Dentre os sintomas estão: dificuldades escolares e de interação social, agitação, inquietação, baixo limiar de inibição, desatenção, impulsividade, entre outros. Viviane conta que a maioria dos casos de TDAH apresenta uma combinação entre hiperatividade e falta de atenção e, “com isso, elas têm o déficit no desenvolvimento escolar, o que faz com que algumas pessoas confundam com déficit de inteligência, o que não é verdade. Essas crianças são extremamente inteligentes, mas é como um filtro: se não prestar atenção primeiro, não vão conseguir aprender”.

Gomes reforça que nem todas as crianças com TDAH apresentam baixo desempenho escolar e explica que o transtorno tem múltiplas causas e provoca uma disfunção nos neurotransmissores, que são substâncias que promovem a comunicação entre os neurônios. O profissional da Novartis ainda faz uma comparação interessante: “a medicação é como se fosse um óculos para quem tem miopia. Vai ajudar a enxergar melhor, mas o que a pessoa vai fazer enquanto usa o óculos é independente. Com o remédio é a mesma coisa. A criança vai ficar mais atenta, menos impulsiva, mas o que vai ser feito depende do fator educacional da família e da escola”.

Medicar para aprender

O Metilfenidato é o princípio ativo do psicoestimulante usado no tratamento do TDAH, já que, segundo Silmara, “ajuda a concentrar a criança, inibir seus comportamentos, reduz a agitação psicomotora e traz uma melhora no rendimento escolar”. Lançado comercialmente com o nome de Ritalina® pelo laboratório Novartis em 1955, o remédio atua bloqueando a ação de neurotransmissores envolvidos na modulação da memória e da concentração e, com isso, acriança vai aprender melhor, lembrar melhor, segundo Silmara.

Assim como todos os fármacos, o medicamento traz efeitos colaterais e requer cautela em seu uso. Por isso, apenas o médico pode prescrever a Ritalina® ao paciente e ele também deve acompanhar o tratamento para evitar efeitos como taquicardia, inibição de apetite, depressão, tendência suicida, entre outros.

Silmara ressalta que a maioria dos estudos mostra que o medicamento é seguro e eficaz. “A menos que seja tomado de forma inadequada e por quem não tem necessidade, não há risco de vício. É preciso ter o diagnóstico correto para poder fazer uso seguro do remédio”, alerta a profissional da Unifesp.

O papel da Educação Física

Viviane conta que ainda há poucos estudos demonstrando os benefícios da atividade física para portadores de TDAH. Segundo a professora de Educação Física, a literatura científica indica três pesquisas sobre o assunto, sendo que duas preconizam que um dia de exercícios já traz benefícios para a cognição da criança, enquanto o outro afirma que esse tempo é insuficiente, embora tenha indicado a atividade física por apenas 10 minutos. “Acreditamos que o mínimo que a criança precisa para ter os efeitos benéficos são 30 minutos, em intensidade moderada a alta. O ideal seria ainda que a aula de educação física nunca fosse no final do dia, mas sempre antes de uma aula que a criança com TDAH considera difícil, porque ela vai ter os efeitos agudos daquele exercício no dia. Ainda não sabemos dizer quanto tempo esse efeito vai durar, mas é importante que a aula não seja muito tranquila”, explica.

Marcelo Gomes enfatiza que a escola pode ajudar a identificar traços do transtorno em criançasao comparar seu comportamento com o de outras crianças da mesma faixa etária e destaca que o profissional de educação física tem papel essencial nessa descoberta: “ele pode notar se acriança tem dificuldades para prestar atenção ou participar de alguma brincadeira, se a coordenação motora é um pouco prejudicada, coisas que fogem do esperado. Assim, junto dos demais professores, ele pode chamar a família e orientar a buscar ajuda”.

Depois do diagnóstico, o médico da Novartis indica que o professor de educação física busque informar-se sobre o transtorno para poder ajudar a criança. “Ele vai ver que algumas atividades não são tão indicadas, que é preciso trocar de atividade a cada 20, 30 minutos e pode, com orientação do médico e do terapeuta da criança, adaptar essas tarefas. Seu papel é super importante”, conclui.

Consultoria Técnica: Márcio Santos

Por Jornalismo Portal EF

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