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quinta-feira, 11 de março de 2010

DEFICIT DE ATENÇÃO AINDA É PROBLEMA SUBESTIMADO


VEJA REPORTAGEM COMPLETA DA REVISTA VEJA EM : http://veja.abril.com.br/noticia/saude/deficit-atencao-ainda-problema-subestimado-533861.shtml

As vendas de metilfenidato - medicamento indicado para o tratamento de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) – saltaram quase 80% entre 2004 e 2008, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O aumento provocou suspeitas de uso indiscriminado da droga: levantou-se até a hipótese de que crianças receberiam erroneamente o diagnóstico positivo por conta do comportamento agitado. Além disso, adolescentes estariam obtendo o remédio tarja-preta clandestinamente para turbinar suas funções cognitivas.

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Em VEJA de 30/9/2009: Entrevista com a psquiatra que sofreu com o déficit de atenção
Consultados acerca da eventual prescrição infantil imprópria, especialistas ouvidos por VEJA.com apostaram justamente na tese contrária. "Configura-se mais um caso de subdiagnóstico do que de prescrição exagerada", afirma Luís Rohde, psiquiatra da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). "Esse fenômeno de vendas mal corresponde à necessidade real do país", complementa Paulo Mattos, psiquiatra da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor do livro sobre o tema No Mundo da Lua. A partir de dados da Anvisa e do IBGE, o médico diz que menos de 30.000 pessoas com TDAH são tratadas por ano no país - número baixo, frente aos 3 milhões de brasileiros potencialmente portadores.

Por essa razão, os especialistas preferem creditar a disparada no consumo à disseminação do conhecimento sobre o distúrbio neuropsiquiátrico - que atinge entre 3% e 6% das crianças em idade escolar. "Quanto maior a gama de informações, capacitação e esclarecimento acerca de um transtorno, mais pessoas procuram um diagnóstico. Isso faz com que aumente a incidência do uso da medicação", afirma Iane Kestelman, psicóloga e presidente da Associação Brasileira de Déficit de Atenção.

Diagnóstico difícil - A opinião dos médicos, contudo, não encerra a questão. "De fato, existem diagnósticos errados e o uso desnecessário da medicação - o que ocorre em todas as áreas medicina. Mas o tratamento correto não pode pagar a conta dos maus profissionais", afirma Kestelman.

Na raiz do problema está a dificuldade no diagnóstico de TDAH. Ao contrário de outros males, não há um exame laboratorial que possa complementar ou confirmar a análise realizada em consultório. Para descobrir se uma criança possui o transtorno, é preciso observar se os sintomas ocorrem há pelo menos seis meses em ambientes diferentes, como escola e família. Além disso, o médico especialista deve, por meio de entrevista, analisar se o perfil do paciente se encaixa em uma lista de 18 sintomas. Isso pode dar margem a que um médico menos experiente realize um diagnóstico exagerado.

"Os sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade têm que se manifestar em todos os contextos em que a criança vive e precisam provocar um prejuízo na vida dela, seja no relacionamento familiar, social ou no desempenho acadêmico", explica Marcos Arruda, neurologista pediátrico do Instituto Glia e membro da Associação de Neurologia e Psiquiatria Infantil.

Erro e acerto - Por conta de um diagnóstico errado, o designer Gabriel (que prefere não revelar seu nome verdadeiro) viveu severas turbulências durante boa parte da vida. "Minha infância e adolescência foram um inferno. Mais tarde, cheguei a largar a faculdade três vezes devido ao problema", conta. Sofrendo, ele procurou um médico, que apresentou o diagnóstico de transtorno bipolar e impôs ao jovem, hoje com 27 anos, três anos de tratamento intensivo com remédios para combater aquele mal.

Há dois anos, porém, veio um novo veredito: TDAH. Veio também uma nova vida. "Agora, faço em 15 minutos uma tarefa que, por conta de distração, levaria uma hora", diz Gabriel.

Surpresa maior acerca da sua situação médica estaria por vir. Depois do novo diagnóstico, a mãe de Gabriel revelou que ele recebera o mesmo parecer médico na infância. O tratamento, contudo, foi suspenso devido a pressões na escola. "Naquela época, a diretora repreendeu minha mãe porque não achava correto dar um remédio tarja-preta para uma criança", diz Gabriel. "Ela só me contou a história depois do novo diagnóstico: até então, ela tinha vergonha de revelar isso."

Como funciona a droga - A Ritalina, nome comercial do metilfenidato, ajuda pessoas com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade a se concentrar com mais facilidade. "Um paciente com TDAH tem seu processo de atenção desregulado na liberação de dopamina (neurotransmissor)", diz Geraldo Possendoro, psiquiatra comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "A medicação estabelece o funcionamento adequado."

Déficit de atenção: professor pode ajudar


REPORTAGEM DA EXCELENTE REVISTA VEJA : Normalmente, é no ambiente escolar que os problemas de atenção e hiperatividade começam a aparecer. Além de agitada, a criança não consegue tirar notas boas ou pode ter problemas para se relacionar com os amigos. Por isso, os médicos ressaltam a importância do professor nesse processo: ele pode levantar a hipótese da existência de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). "Muitas vezes, eles percebem os sinais antes mesmo dos pais. É importante ouvi-los", afirma Paulo Mattos, psiquiatra da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor do livro No Mundo da Lua, sobre TDAH.

Nas escolas, o comportamento das crianças é observado de perto por pedagogos. Quando uma criança começa apresentar um comportamento prejudicial, os pais devem ser imediatamente convidados para uma conversa.

"Não temos capacidade de diagnosticar. O que podemos fazer é conversamos com a família e sugerir uma avaliação médica", explica Kristine Kross Maita, diretora da Unidade do Morumbi do Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo. "Na escola, temos muitas crianças que tomam Ritalina (medicamento que controla o TDAH) e já tivemos resultados excelentes."

O tratamento para uma criança com TDAH pode mudar completamente sua evolução, principalmente na fase escolar. No entanto, é preciso cautela. "Nem todos os que são agitados têm TDAH", alerta Silvania Leporace, coordenadora do serviço de orientação educacional do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo. "As crianças fazem muitas coisas ao mesmo tempo, mas nem todas são hiperativas. Algumas só precisam de regras e limites", completa.

Paulo Mattos resume qual deve ser o objetivo de um eventual tratamento para uma criança, caso o TDAH seja comprovado. "A ideia principal não é tratar essa criança porque ela é agitada demais e atrapalha as outras. Deve-se tratá-la porque o problema atrapalha o próprio desenvolvimento dela."

Leia mais:

http://veja.abril.com.br/noticia/saude/deficit-atencao-professor-pode-ajudar-533950.shtml

Déficit de atenção ainda é problema subestimado

Droga para déficit de atenção é usada para 'turbinar' mente

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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Como identificar o transtorno do déficit de atenção e Hiperatividade na criança

Psicóloga Maria Cristina Capobianco


A psicóloga Maria Cristina Capobianco explica como os pais e as escolas devem lidar com uma criança que tem déficit de atenção e chama à atenção dos pais para avaliar se realmente a criança possui a patologia ou se a distração e a hiperatividade na escola se deve a outros fatores psicossociais e ambientais.

O transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição neuropsiquiátrica que acomete 3-5% das crianças e que, frequentemente, persiste até a idade adulta, podendo ser considerado um dos mais comuns transtornos neuropsiquiátricos. Os principais sintomas são a dificuldade em manter a atenção, o comportamento hiperativo e de impulsividade.

A psicóloga Maria Cristina Capobianco explica que a problemática levantada pelo Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade tem sido fonte de discussão ampla nas últimas décadas. O interesse pela aprendizagem e a aquisição de conhecimentos têm sido pesquisadas por muitas áreas do saber e encontram nos estudos sobre a infância sua principal abordagem.

De modo geral, pode-se afirmar que os modos subjetivos de apropriação do saber e desenvolvimento de habilidades para a utilização deste saber resistem a toda tentativa de categorização, ressaltando que o singular ainda encontra um lugar privilegiado nesta discussão. A amplitude das causas envolvidas na aprendizagem, seus impasses e dificuldades têm sido relegada pela crescente patologização do fracasso escolar e à consequente medicalização do seu manejo.

A conceitualização deste transtorno constitui uma tentativa de explicar o fracasso escolar em crianças e adolescentes que apresentam os comportamentos que se enquadram no mesmo.

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDA/H) é caracterizado por padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade/impulsividade, que é mais frequente e grave do que é tipicamente observado em indivíduos no nível comparável de desenvolvimento.

Em geral, observa-se em crianças que tiveram um início precoce da sua educação formal, que elas apresentam falta de perseverança nas atividades que exigem um envolvimento cognitivo e uma tendência a passar de uma atividade a outra sem acabar nenhuma, associadas a uma atividade global desorganizada, incoordenada e excessiva.

Os transtornos podem ser acompanhados de outras anomalias. O DSM F90 (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) alerta que as crianças hipercinéticas são frequentemente imprudentes e impulsivas, sujeitas a acidentes e incorrem em problemas disciplinares mais por infrações não premeditadas de regras que pelo desafio deliberado. Suas relações com os adultos são marcadas por uma ausência de inibição social, com falta de cautela e reserva normais.

Os pais devem ficar atentos nas atitudes dos filhos.

A terapeuta afirma que muitas vezes essas crianças acabam sendo impopulares com as outras crianças e podem se tornar isoladas socialmente, isso é um dos diagnósticos da patologia. Esta desordem é frequentemente acompanhada de um Déficit Cognitivo e de um retardo específico do desenvolvimento da motricidade e da linguagem.

Alguns destes sintomas podem estar presentes antes dos sete anos, embora a maioria seja diagnosticada após a manifestação destes por alguns anos, podendo observá-los em diversas situações como na casa, na escola ou no trabalho.

Nos Estados Unidos, hoje em dia, cresce o número de crianças diagnosticadas com TDA/H; neste sentido é visto como uma doença orgânica a ser tratada com medicamentos. As crianças com TDA/H são tratadas com psicoestimulantes, o principal é conhecido como Ritalina e é prescrito para milhares de crianças com menos de 18 anos nos Estados Unidos.

A psicóloga alerta “Embora tenha sido demonstrada que Ritalina pode ajudar nos casos graves, pode não ser benéfica em casos leves já que seus efeitos colaterais podem ser piores do que os sintomas de TDA/H”. A Ritalina pode interferir no crescimento das crianças e desconhece-se os efeitos neurológicos a longo prazo deste fármaco.

Outro possível problema em tratar as crianças com Ritalina é o potencial para abuso e dependência. Ritalina é um estimulante e é classificado como uma anfetamina. As anfetaminas apresentam um provável risco de dependência. Um estudo constatou que crianças que tomaram Ritalina por mais de 3 anos, apresentaram maior risco de cometer crimes e abusos de substâncias. Outros efeitos colaterais do medicamento incluem dores de cabeça e estômago, redução do apetite, depressão, irritabilidade, ansiedade, aumento da pressão arterial, dificuldades para dormir e nervosismo.

Nesta perspectiva, na qual os transtornos de atenção e hipercinéticos são compreendidos meramente como uma deficiência orgânica, desaparecem muitas outras questões que podem determinar os fracassos escolares, tais como: os avatares envolvidos na relação professor-aluno, as dimensões socioculturais de cada lugar, as políticas educacionais, os métodos de ensino e a formação dos professores, entre outros.

Tem ocorrido um exagero neste tipo de diagnóstico e os critérios de inclusão diagnosticados são pouco específicos. Consequentemente, acabam catalogando os comportamentos em entidades nosológicas estéreis, pois não levam em consideração os fatores psicossociais e ambientais, esclarece Cristina. O fracasso escolar precisa ser analisado de uma ampla gama de perspectivas, porém, as que mais predominam são aquelas que atribuem uma patologia às crianças que não aprendem ou não respondem às expectativas da escola.

A equipe de profissionais do grupo Educational Forensics (educationalforensics@terra.com.br) sugere que para as crianças que fracassam na sua aprendizagem, seja feita uma avaliação e acompanhamento multidisciplinar, de neurologista, psicopedagoga, psicológica, mantendo um vínculo estreito de troca de informações com a escola também. Na sua experiência, os resultados obtidos através do uso da Ritalina em crianças diagnosticadas com TDA/H não diferem dos resultados obtidos com acompanhamento multidisciplinar.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

ATENÇÃO & DESATENÇÃO


Você está prestando atenção?

Segundo William James, a atenção é “uma tomada de posse da mente, em uma forma clara e vívida, de um dos diversos objetos ou séries de pensamentos que parecem simultaneamente possíveis.

Implica o abandono de algumas coisas a fim de ocupar-se efetivamente de outras”.

O estabelecimento do foco de atenção possui um valor adaptativo na medida em que discriminamos os estímulos que são relevantes dos irrelevantes e os direcionamos seletivamente aos recursos limitados de processamento das informações de nosso encéfalo (Bear e colaboradores, 2002).

Ao ler um texto, como essa postagem, a atenção é essencial para que se compreenda o conteúdo. Nesse caso, outros estímulos que provêem do ambiente ou de outros processos mentais (como a memória evocativa) podem desviar a nossa atenção e conseqüentemente atrapalhar a compreensão do texto.
Disso voltamos à pergunta inicial: Você está prestando atenção? Se sua resposta for positiva, será que você consegue lembrar razoavelmente bem a definição de James ou o complemento de Bear sobre a atenção? Se sua resposta for negativa, o que terá desviado a sua atenção do texto? Essas perguntas são importantes para compreendermos como as pessoas relacionam-se com um ambiente repleto de estímulos em que cada estímulo parece importante.

As pessoas que não estavam prestando atenção à leitura provavelmente focaram-na em outro estímulo e relegaram à leitura uma importância secundária. Essa desatenção ocorre quando processamos estímulos variados ao mesmo tempo e acabamos focando nossa atenção em apenas um, ou no máximo dividimos a atenção entre dois estímulos.
Muitas vezes a desatenção é atribuída erroneamente ao déficit de atenção/hiperatividade (TDA/H). Este déficit pode ser somente de atenção (TDA), somente hiperatividade e as duas características ao mesmo tempo (TDAH).

Esse transtorno é mais comumente verificado em crianças (em sua maioria meninos, na proporção de 10 para 1 contra as meninas) representando de 3 a 5 % da população infantil. Porém, recentemente tem se avaliado a existência dele também em adolescentes e adultos. Muitas crianças acometidas pelo transtorno têm pais como o mesmo problema, pois se trata de uma condição genética em 80% dos casos.

As características do TDA/H incluem um padrão de funcionamento cerebral deficitário em alguns locais como o lobo parietal (relaciona-se ao processamento da sensibilidade cinestésica-movimento), o córtex pré-frontal (responsável pela concentração e atenção seletiva) e o córtex cingulado anterior (está ligado ao armazenamento da memória de longo prazo). Em crianças afetadas é comum o relato de que: se movimentam constantemente, falam demais, possuem dificuldades de brincar ou permanecer em silêncio quando lhes são exigidos tais comportamentos, têm pouca coordenação motora e dificuldades em permanecer em uma única tarefa por tempo prolongado. Isso pode gerar grandes déficits de aprendizagem e dificuldades de comunicação.

Na maioria dos casos, o transtorno persiste na adolescência e vida adulta (60% a 70% deles). Porém, geralmente perdem-se as características da hiperatividade, ficando potencializada a falta de atenção e concentração na realização das tarefas diárias.

O tratamento medicamentoso mais comum se dá com o remédio Ritalina (Metilfenidato). Esse medicamento é uma anfetamina psicoestimulante que age inibindo a recaptação de dopamina e noradrenalina (neurotransmissores que atuam no encéfalo). Desta forma, o remédio faz com que esses receptores potencializem as sinapses neuronais (principalmente a nível de córtex pré-frontal) aumentando a capacidade de concentração e coordenação motora (fatores pelos quais a Ritalina foi e ainda é utilizada para atletas, competidores e pessoas outras que não possuem o transtorno).

O tratamento medicamentoso deve ser reforçado com a psicoterapia e o acompanhamento familiar. O diagnóstico para o TDAH tem que ser diferencial, baseado não apenas nas características da desatenção ou no excesso de “euforia” do paciente. É preciso um estudo cuidadoso do histórico familiar, da constituição da família e da criação dada ao paciente.

Postado por: Guilherme da Costa Alves e Júlia Rodrigues Lobo
Fonte: PsiqWeb- Portal de Psiquiatria : http://virtualpsy.locaweb.com.br/?art=318&sec=35

Lima, Ricardo F. de (2005). Compreendendo os mecanismos atencionais. Ciências & Cognição; Ano 02, Vol.06, nov/2005. Disponível em http://www.cienciasecognicao.org/

ANDRADE, Ênio Roberto de e SCHEUER, Claudia. Análise da eficácia do metilfenidato usando a versão abreviada do questionário de conners em transtorno de déficit de atenção/hiperatividade.
Arq. Neuro-Psiquiatr. [online]. 2004, vol. 62, no. 1 [citado 2008-05-27], pp. 81-85.

ROTHENBERG, Aribert e BANASCHEWKI, Tobias. Mentes Inquietas. Revista Viver Mente & Cérebro. 2008, nº 144. Editora Duetto. São Paulo –SP.