Blog do Prof de Ed. Física MSc SERGIO CASTRO,da Pós Graduação em Educação Especial e Tecnologia Assistiva da Universidade Cândido Mendes(AVM) ;Ex-professor da Universidade Estácio de Sá e Ex-Coordenador de Esportes para Pessoas com Deficiências (PcD) do Projeto RIO 2016 da SEEL RJ ,destinado a fornecer informações sobre pessoas com deficiência(PcD) e com Necessidades Educativas Especiais(PNEE), bem como a pessoas interessadas nesta área ( estudantes, pais, parentes, amigos e pesquisadores)
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sábado, 18 de dezembro de 2010
terça-feira, 31 de agosto de 2010
MORRE DORINA NOWWILL PEDAGOGA CEGA QUE PERDEU A VISAO AOS 17 ANOS - FUNDADORA DA FUNDAÇÃO QUE LEVA O SEU NOME
Dorina Nowill morre aos 91 anos
http://janeausten.com.br/2009/10/podemos-ser-todos-iguais-quando-lemos/
Terça-feira, 31 de Agosto de 2010 10:
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Blog DORINA
Blog da Fundação Dorina Nowill para Cegos
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Nota de Falecimento
Posted on 30/08/2010
by blogdorina
3 comentários
Caros amigos,
É com enorme tristeza que comunicamos o falecimento de nossa fundadora e presidente emérita, Dorina de Gouvêa Nowill, ocorrido neste domingo, 29 de agosto de 2010, às 19h30, de falência múltipla dos órgãos.
O velório, aberto ao público e a imprensa acontece nesta segunda-feira, 30 de agosto de 2010, a partir das 8h, na sede da Fundação Dorina Nowill para Cegos, na Rua Dr. de Diogo de Faria, nº558, Vila Clementino, em São Paulo, e o sepultamento acontecerá no Cemitério da Consolação, às 16h.
Dorina estava com 91 anos de idade e era daquelas brasileiras que nos faziam acreditar no Brasil. Perseverança, compaixão e paciência são as lições deixadas por esta paulistana, que cega aos 17 anos enxergava o mundo com os olhos da alma.
Ficam a saudade e os exemplos como guias para a continuidade do trabalho iniciado e desenvolvido por Dorina em mais de seis décadas.
Nesta ocasião, expressamos também nossa gratidão pelas condolências recebidas e reiteramos nosso compromisso, assumido ano após ano, com o desenvolvimento e a inclusão social da pessoa cega e com baixa visão em nossa sociedade.
São Paulo, 29 de agosto de 2010
Alfredo Weiszflog, diretor-presidente voluntário
Fundação Dorina Nowill para Cegos
Senado Inclusivo lamenta morte de Dorina Nowill
O Programa Senado Inclusivo divulgou nota lamentando a morte da pedagoga Dorina de Gouvêa Nowill, no último fim de semana, aos 91 anos. Dorina estava internada devido a uma infecção e sofreu um ataque cardíaco. A pedagoga, que perdeu a visão aos 17 anos, criou a Fundação Dorina Nowill para facilitar a inclusão dos cegos por meio da produção e distribuição de livros em braile.
A Fundação Dorina Nowill, parceira do Senado no tema da acessibilidade e valorização da pessoa com deficiência, participou em 2009 da 5ª Semana do Senado Federal de Acessibilidade e Valorização da Pessoa com Deficiência, que teve como tema o bicentenário do nascimento de Louis Braille, inventor do sistema de leitura para cegos.
Da Redação / Agência Senado
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Estadão
Pioneira da inclusão social de cegos morre aos 91 anos
Dorina Nowill estava internada há 15 dias em SP; corpo será velado na sede de sua fundação
30 de agosto de 2010 - Agência Estado
A professora Dorina de Gouvêa Nowill, uma das maiores ativistas pela inclusão dos deficientes visuais no País, morreu ontem aos 91 anos. Segundo informações de familiares, ela estava internada havia cerca de 15 dias no Hospital Santa Isabel, na zona oeste, para tratar uma infecção, mas acabou sofrendo parada cardíaca. O velório deve ser realizado hoje na sede da fundação que leva seu nome.
"Foi uma morte praticamente natural", afirmou seu filho Alexandre Nowill, que também era seu médico. Dorina, que era casada com Edward Hubert, deixa outros quatro filhos - Cristiano, Denise, Dorininha e Márcio Manuel -, além de 12 netos.
A professora ficou cega aos 17 anos por causa de uma doença que os médicos nunca conseguiram entender. Decidiu então dedicar a vida à luta pela inclusão de pessoas na mesma condição.
Com um grupo de amigas, criou em 1946 a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, que em 1991 recebeu seu nome. Junto com o Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, a Fundação Dorina Nowill Para Cegos foi uma das pioneiras na produção de livros em Braille, na distribuição gratuita dessas obras para deficientes visuais e no desenvolvimento de técnicas mais modernas para que o cego consiga ler - como livros falados e vozes sintetizadas no computador.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Tópicos: Dorina Nowill, Ativista, Cegos, Inclusão social
Nosso movimento perde mais uma ativista que fez um nome, deixou uma história, deixou princípios e ensinamentos, deixou exemplo... sem precisar "lutar" nem atacar outros, mas sim usando de sua força, coragem, sapiência e humildade.
http://blogdorina.wordpress.com/
http://janeausten.com.br/2009/10/podemos-ser-todos-iguais-quando-lemos/
sábado, 28 de agosto de 2010
Pessoas que ficam cegas depois do nascimento podem ver imagens durante os sonhos.
10 Fatos extraordinarios sobre os sonhos
Os cegos também sonham
Pessoas que ficam cegas depois do nascimento podem ver imagens durante os sonhos.
As pessoas que nascem cegas não enxergam nada, mas possuem sonhos igualmente vívidos envolvendo seus outros sentidos: audição, olfato, tato e suas emoções. É difícil para pessoas que enxergam imaginar, mas o a necessidade dos sonhos para o corpo é tão forte que os cegos podem virtualmente manipular todas as situações com as quais sonham.
Os cegos também sonham
Pessoas que ficam cegas depois do nascimento podem ver imagens durante os sonhos.
As pessoas que nascem cegas não enxergam nada, mas possuem sonhos igualmente vívidos envolvendo seus outros sentidos: audição, olfato, tato e suas emoções. É difícil para pessoas que enxergam imaginar, mas o a necessidade dos sonhos para o corpo é tão forte que os cegos podem virtualmente manipular todas as situações com as quais sonham.
o que faz um cão guia?
ANCLIVEPA-SP
AQUELES OLHOS QUE SÃO OS MEUS
O que faz um cão ser guia de cegos? Como o médico veterinário pode atuar na formação e no acompanhamento desses animais tão especiais? O Boletim Informativo da Anclivepa-SP foi visitar um canil de formação de cães-guia para entender como o cão pode ‘ver e pensar’ como o homem.
Boletim Informativo - Nº52 - 2007
Quem ainda imagina que cães e outros animais são incapazes de alterar expressões faciais ou mudar de comportamento não conheceu tantos animais quanto deveria.
De um instante para outro, em questão de segundos, suas feições mudam por completo. O cenho parece ter recebido todo o peso de uma responsabilidade que faz parte somente do mundo dos homens. Sua postura tornou-se altiva, a cauda deixou de girar para assumir posição anatômica e todo estado de excitação transformou-se em calmaria e pura atenção. Ao receber sua trela de cor amarelo-vivo, ‘Thor’, um Retrivier do Labrador de apenas 2 anos de idade parece ter percebido, de imediato, tudo o que deveria fazer. Jackson Garcia de Lima, adestrador formado pela polícia do exército, treina Thor desde o princípio. E os dois parecem se conhecer profundamente.
Thor é um cão guia de cegos. É bem verdade que sua função atual é participar de apresentações e demonstrações sobre cães de trabalho, mas Thor é o cão que reúne todas as principais características que um bom cão-guia deve ter. Tanto assim que está sendo preparado para gerar filhotes com a índole adequada para este tipo de treinamento, algo que não é tão fácil de conseguir.
Quando está com seus instrumentos de trabalho – a trela, um peitoral de tecido onde se acopla o arreio, haste rígida em formato retangular que servirá para que o cego segure e seja conduzido pelo cão – Thor simplesmente se desliga do mundo das brincadeiras. Nem mesmo seu brinquedo preferido, uma bola verde de borracha, tira-lhe a atenção.
“A partir deste momento, ele sabe o que deve e o que não deve fazer”, diz Jackson, confiante. Ao ser desafiado para pegar um objeto passando por baixo de um obstáculo, por exemplo, ele não titubeia. Faz a volta ao redor, a despeito da facilidade que teria se abaixasse e passasse. Com isso, Thor protegeu seu adestrador de um tropeção inevitável.
AQUELES OLHOS QUE SÃO OS MEUS
O que faz um cão ser guia de cegos? Como o médico veterinário pode atuar na formação e no acompanhamento desses animais tão especiais? O Boletim Informativo da Anclivepa-SP foi visitar um canil de formação de cães-guia para entender como o cão pode ‘ver e pensar’ como o homem.
Boletim Informativo - Nº52 - 2007
Quem ainda imagina que cães e outros animais são incapazes de alterar expressões faciais ou mudar de comportamento não conheceu tantos animais quanto deveria.
De um instante para outro, em questão de segundos, suas feições mudam por completo. O cenho parece ter recebido todo o peso de uma responsabilidade que faz parte somente do mundo dos homens. Sua postura tornou-se altiva, a cauda deixou de girar para assumir posição anatômica e todo estado de excitação transformou-se em calmaria e pura atenção. Ao receber sua trela de cor amarelo-vivo, ‘Thor’, um Retrivier do Labrador de apenas 2 anos de idade parece ter percebido, de imediato, tudo o que deveria fazer. Jackson Garcia de Lima, adestrador formado pela polícia do exército, treina Thor desde o princípio. E os dois parecem se conhecer profundamente.
Thor é um cão guia de cegos. É bem verdade que sua função atual é participar de apresentações e demonstrações sobre cães de trabalho, mas Thor é o cão que reúne todas as principais características que um bom cão-guia deve ter. Tanto assim que está sendo preparado para gerar filhotes com a índole adequada para este tipo de treinamento, algo que não é tão fácil de conseguir.
Quando está com seus instrumentos de trabalho – a trela, um peitoral de tecido onde se acopla o arreio, haste rígida em formato retangular que servirá para que o cego segure e seja conduzido pelo cão – Thor simplesmente se desliga do mundo das brincadeiras. Nem mesmo seu brinquedo preferido, uma bola verde de borracha, tira-lhe a atenção.
“A partir deste momento, ele sabe o que deve e o que não deve fazer”, diz Jackson, confiante. Ao ser desafiado para pegar um objeto passando por baixo de um obstáculo, por exemplo, ele não titubeia. Faz a volta ao redor, a despeito da facilidade que teria se abaixasse e passasse. Com isso, Thor protegeu seu adestrador de um tropeção inevitável.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
.Deficiente Alerta: Psicólogo cego inspira livro infantil em Braille
.Deficiente Alerta: Psicólogo cego inspira livro infantil em Braille: "A autora do livro é a fonoaudióloga Cláudia Cotes, da Ong 'Vez da Voz' Duilio Fabbri Jr 'Dudu da Breka' poderia ser mais um livro infantil..."
sábado, 19 de dezembro de 2009
Como os cegos diferenciam as notas de dinheiro?


FONTE: REVISTA ÉPOCA
http://caoguia.wordpress.com/2009/11/07/como-os-cegos-diferenciam-as-notas-de-dinheiro/VEJAM MAIS SOBRE O BLOG SOBRE CÃO GUIA EM : http://caoguia.wordpress.com/2009/11/07/como-os-cegos-diferenciam-as-notas-de-dinheiro/
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI103120-15223,00-COMO+OS+CEGOS+DIFERENCIAM+AS+NOTAS+DE+DINHEIRO.html
Como os cegos diferenciam as notas de dinheiro?As cédulas de real apresentam diferenças perceptíveis no tato apenas quando estão novas. O Banco Central deve adotar modelo estrangeiro para que os cegos consigam identificar melhor os valores. O braile não é uma opção viável
Laura Lopes
Real As notas apresentam apenas marcas de relevo
Em qualquer lugar do mundo é possível reconhecer o valor das notas de dinheiro. Seja na Índia, na China ou nos Estados Unidos, e nem precisa saber a língua nativa, nem mesmo ser alfabetizado.
Só há uma exceção para essa regra: os deficientes audiovisuais.
Como eles contam dinheiro? Aqui no Brasil, as moedas da segunda família (a segunda geração de moedas de real) possuem tamanhos e espessuras diferentes, algumas são serrilhadas nas bordas, justamente para serem diferenciadas por meio do tato.
Já as cédulas têm marcas de relevo que se perdem com o uso. “Essas marcas são pouco perceptíveis, principalmente para os mais idosos.
E, com o tempo, as notas vão perdendo o relevo”, diz Regina Fátima Caldeira de Oliveira, deficiente visual e coordenadora da Revisão dos Livros Braille da Fundação Dorina Nowill, de São Paulo.
Euro Cada valor tem um tamanho diferente, obedecendo à regra de quanto maior o valor, maior o tamanho.
A nota também apresenta marcas táteis em relevo
A primeira solução que vem à cabeça é a inserção de caracteres em braile nas notas.
Essa, no entanto, é uma saída pouco útil: o braile sairia com o desgaste das cédulas, assim como acontece com as marcas de relevo atuais.
“Além disso, o braile é lido por muitas pessoas cegas, mas não por todas. A gente não quer braile nas notas”, afirma Regina, que participou de reuniões com o Banco Central e a Casa da Moeda, junto a entidades representativas dos deficientes visuais do país, para encontrar uma solução viável e prática para o problema. O BC comunga a opinião da Fundação Dorina. Segundo João Sidney, do chefe do departamento de Meio Circulante, “a tecnologia de impressão não tem sobrevida. Na terceira manipulação da nota, o braile já acaba”.
Apesar da concordância, pouca gente sabe que o braile não é o melhor caminho a seguir. No dia 27 de outubro, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) encaminhou um ofício à Casa da Moeda solicitando informações sobre a viabilidade técnica para implantação desse sistema de leitura nas cédulas e moedas do país.
A proposta, feita pelo conselheiro do Amazonas Edson de Oliveira, tem a melhor das boas intenções, em defesa dos direitos dos cegos, já que os mesmos não têm acesso à leitura das notas. Mas não funciona. “Há quem faça isso para melhorar e ajudar, mas devia falar com pessoas que lidam com o problema diriamente e que podem ter a melhor proposta”, diz Regina.
Austrália As notas têm tamanhos diferentes e são reconhecidas por meio de um gabarito
Entre as propostas sugeridas nas reuniões entre as entidades e o governo, a que mais agrada Regina é o modelo adotado na Austrália e nos países que fazem parte da comunidade Européia (e usam o euro). Lá, as notas possuem tamanhos diferentes, crescendo à medida que o valor aumenta. O portador de deficiência visual recebe uma espécie de gabarito que indica o valor da nota, em braile. Ao colocar a nota dentro desse gabarito, sua ponta vai cair sobre o valor correspondente a ela. Serve mais para quem ainda não decorou o tamanho das notas ou não está acostumado àquela moeda.
Canadá Além das notas terem furinhos arranjados de formas diferentes para cada valor (à dir.), um aparelhinho lê a nota e emite um sinal diferente para cada valor, por meio de voz, som ou vibração
Na opinião do BC, no entanto, o modelo canadense é que deve vigorar no Brasil. Segundo o chefe do departamento de Meio Circulante do Banco Central, não é necessário mexer no design ou tamanho do dinheiro.
“O Canadá insere nas notas uma tinta invisível diferente para cada valor e distribui um aparelhinho subsidado que reconhece o magnetismo da tinta e emite um sinal para cada valor”, afirma João Sidney.
Trata-se de um aparelho pequeno, que pode ser levado no bolso e distribuído gratuitamente pelo Canadian National Institute for the Blind.
Sobre o gabarito, adotado pelos australianos e europeus, Sidney diz que não é a melhor solução e, como o reconhecimento é feito pelo tato, pode levar a erros de interpretação. “Eu apostaria nessa tecnologia sonora”, diz. Só não se sabe quando ela entrará em vigor
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
JUDO PARAOLIMPICO ( DEFICIENTES VISUAIS) - Infraero é patrocinadora oficial do judô


Contrato foi assinado nesta segunda-feira
Crédito: Vinicius Loures
O judô paraolímpico tem um patrocinador: a Infraero.
A Empresa Brasileira de Estrutura Aeroportuária promoveu no aeroporto de Brasília, na manhã desta segunda-feira (dia 16), uma apresentação com os judocas brasileiros que ganharam medalha nos Jogos Paraolímpicos de Pequim. Antes, porém, o presidente do Comitê Paraolímpico Brasileiro, Andrew Parsons, e o presidente da Infraero, Murilo Marques Barboza, assinaram o contrato de patrocínio.
A empresa apoiará o judô por um ano com o investimento total de R$ 500 mil. A verba será destinada à preparação da Seleção Brasileira permanente de judô paraolímpico, a participação no Mundial do próximo ano, na Turquia, e para a realização de dois Grand Prix nacionais em 2010. No próximo dia 21 de novembro será disputado o Grand Prix de judô paraolímpico, na Andef, em Niterói. Será a primeira competição desde a adesão da Infraero na modalidade.
Em contrapartida, o CPB cederá propriedades de marketing e relacionamento, com a participação de atletas em eventos institucionais, por exemplo. A Infraero é a primeira empresa de patrocínio especificamente uma modalidade olímpico que passa a patrocinar a mesma modalidade em sua versão paraolímpica. A empresa patrocina o judô olímpico desde 2005.
“É um momento especial para história do esporte paraolímpico. A atitude da Infraero facilita o entendimento da cidadania”, disse Parsons em seu discurso. “Esse patrocínio mostra que a Infraero trata com igualdade o judoca com deficiência visual e o olímpico. Esperamos que outras empresas sigam investindo no esporte e respeitando esses atletas também como cidadãos”, completou. “Nossa parceria com o judô paraolímpico é mais que financeira, ela representa o fortalecimento da nossa marca e conota uma atitude social. A Infraero espera mais adesões ao esporte paraolímpico”, declarou Barboza.
O judoca Antonio Tenório, ganhador de quatro ouros paraolímpicos, se apresentou para o público no aeroporto de Brasília e falou da importância do patrocínio da Infraero. “Vai facilitar nossa preparação para o Campeonato Mundial, em março, na Turquia. Se voltarmos de lá com bons resultados, tenho certeza que outros patrocinadores vão surgir”, vislumbrou.
Media Guide Comunicação/Assessoria de Imprensa do Comitê Paraolímpico Brasileiro
Daniel Brito (daniel.brito@cpb.org.br / 61 3031-3030 ou 61 8161-9271
Diogo Mourão (diogo@mediaguide.com.br / 21 8301-0149)
Manoela Penna (manoela@mediaguide.com.br) / 21 8301-0123)
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Mais de 314 milhões de deficientes visuais em todo o mundo, 46 milhões de cegos - OMS
maria isabel da silva
jornalista-sp
Mais de 314 milhões de deficientes visuais em todo o mundo, 46 milhões de cegos - OMS
Cidade da Praia, 04 Out (Lusa) -- Mais de 314 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de deficiências visuais, sendo 46 milhões delas cegas, com os países em vias desenvolvimento, sobretudo África, a "acolherem" 87 por cento de todos os casos.
Os dados, "muito preocupantes", foram avançados hoje à Agência Lusa pelo representante da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Cabo Verde, o malgaxe Andriamahefazafy Barrysson, à margem do 1º Encontro Luso-Africano de Oftalmologia, que decorre desde sábado na Cidade da Praia e que hoje termina.
Barrysson indicou que muitos dos problemas oftalmológicos poderão ser ultrapassados se houver políticas nacionais de apoio a esta especialidade médica, sobretudo na formação "intensa" de oftalmologistas.
Fonte: http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/10197073.html
jornalista-sp
Mais de 314 milhões de deficientes visuais em todo o mundo, 46 milhões de cegos - OMS
Cidade da Praia, 04 Out (Lusa) -- Mais de 314 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de deficiências visuais, sendo 46 milhões delas cegas, com os países em vias desenvolvimento, sobretudo África, a "acolherem" 87 por cento de todos os casos.
Os dados, "muito preocupantes", foram avançados hoje à Agência Lusa pelo representante da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Cabo Verde, o malgaxe Andriamahefazafy Barrysson, à margem do 1º Encontro Luso-Africano de Oftalmologia, que decorre desde sábado na Cidade da Praia e que hoje termina.
Barrysson indicou que muitos dos problemas oftalmológicos poderão ser ultrapassados se houver políticas nacionais de apoio a esta especialidade médica, sobretudo na formação "intensa" de oftalmologistas.
Fonte: http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/10197073.html
quinta-feira, 9 de julho de 2009
JOGOS DE COMPUTADOR PARA CEGOS
VEJAM MAIS SOBRE JOGOS DE COMPUTADOR PARA CEGOS EM : http://www.lerparaver.com/jogos_acessiveis#comment-4172
Submetido em Sábado, 05/08/2006 - 21:24 por Faial
Com o tema: Software específico
Não sei se esta é uma realidade conhecida pela maioria de entre vós mas decidi escrever este artigo para dar a conhecer e talvez para orientar alguns possíveis novos interessados para este novo mundo que é uma fonte de bem-estar que nos transmite um sentimento de muita igualdade principalmente para os jovens como eu!
Eu em criança, como muitas crianças cegas tinha sempre o desejo incontrolável de ser igual aos outros e de fazer tudo o que os meus amigos faziam. Nessa altura todas as crianças passavam muito tempo a jogar computador e eu claro não conseguia.
Mas agora tudo mudou, muitos produtores (a maioria de países anglo saxónicos) criaram o fenómeno dos “acessible games” ou seja jogos que são totalmente acessíveis para pessoas sem visão.
E porquê? Simplesmente porque estes são jogos totalmente áudio onde a informação é totalmente sonora.
Para começar gostaria de indicar um site que digamos é o site da comunidade de jogadores e produtores de jogos para cegos:
www.audiogames.net
Este site (de língua inglesa) tem informação sobre todos os jogos existentes bem como descrições e links para o download dos mesmos. É uma excelente fonte para principiantes porque tem tudo o que devemos saber para nos orientarmos consoante os nossos gostos.
Não vou aqui dizer nem descrever os tipos de jogos que existem porque precisaria de escrever um artigo muito longo que poderia ser algo monótono mas diria para dar uma ideia que existem em versão áudio todos os tipos de jogos que existem para as pessoas com visão.
Em seguida vou citar um portal que tem um excelente jogo que é um simulador de corridas que está traduzido em português. O jogo chama-se Top Speed 2 e pode ser encontrado em:
www.playinginthedark.net
Outros jogos que são muito interessantes podem ser encontrados em páginas como:
www.kitchensinc.net
www.pb-games.com
www.vipgameszone.com
www.gmagames.com
www.lighttechinteractive.com
www.l-works.net
Existem muitos outros mas não seria interessante indicá-los todos porque seria uma lista interminável: apenas falei naqueles que me parecem ser os melhores. Se o tema interessar volto a escrever com mais informações.
Antes de terminar gostaria de mencionar um jogo on-line que está a ganhar cada vez mais adeptos que é um jogo que não é especificamente pensado para cegos mas que é perfeitamente acessível para os nossos leitores de ecrã e ainda por cima está traduzido em muitas línguas entre as quais o português. Neste jogo totalmente gratuito que é jogado no browser da Internet, somos um treinador de uma equipa de futebol e acompanhamos a nossa equipa na liga contra outros utilizadores. Joga-se em
www.hattrick.org
Espero que as informações tenham sido úteis e desejo a todos muito divertimento e lazer porque também merecemos.
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Submetido em Sábado, 05/08/2006 - 21:24 por Faial
Com o tema: Software específico
Não sei se esta é uma realidade conhecida pela maioria de entre vós mas decidi escrever este artigo para dar a conhecer e talvez para orientar alguns possíveis novos interessados para este novo mundo que é uma fonte de bem-estar que nos transmite um sentimento de muita igualdade principalmente para os jovens como eu!
Eu em criança, como muitas crianças cegas tinha sempre o desejo incontrolável de ser igual aos outros e de fazer tudo o que os meus amigos faziam. Nessa altura todas as crianças passavam muito tempo a jogar computador e eu claro não conseguia.
Mas agora tudo mudou, muitos produtores (a maioria de países anglo saxónicos) criaram o fenómeno dos “acessible games” ou seja jogos que são totalmente acessíveis para pessoas sem visão.
E porquê? Simplesmente porque estes são jogos totalmente áudio onde a informação é totalmente sonora.
Para começar gostaria de indicar um site que digamos é o site da comunidade de jogadores e produtores de jogos para cegos:
www.audiogames.net
Este site (de língua inglesa) tem informação sobre todos os jogos existentes bem como descrições e links para o download dos mesmos. É uma excelente fonte para principiantes porque tem tudo o que devemos saber para nos orientarmos consoante os nossos gostos.
Não vou aqui dizer nem descrever os tipos de jogos que existem porque precisaria de escrever um artigo muito longo que poderia ser algo monótono mas diria para dar uma ideia que existem em versão áudio todos os tipos de jogos que existem para as pessoas com visão.
Em seguida vou citar um portal que tem um excelente jogo que é um simulador de corridas que está traduzido em português. O jogo chama-se Top Speed 2 e pode ser encontrado em:
www.playinginthedark.net
Outros jogos que são muito interessantes podem ser encontrados em páginas como:
www.kitchensinc.net
www.pb-games.com
www.vipgameszone.com
www.gmagames.com
www.lighttechinteractive.com
www.l-works.net
Existem muitos outros mas não seria interessante indicá-los todos porque seria uma lista interminável: apenas falei naqueles que me parecem ser os melhores. Se o tema interessar volto a escrever com mais informações.
Antes de terminar gostaria de mencionar um jogo on-line que está a ganhar cada vez mais adeptos que é um jogo que não é especificamente pensado para cegos mas que é perfeitamente acessível para os nossos leitores de ecrã e ainda por cima está traduzido em muitas línguas entre as quais o português. Neste jogo totalmente gratuito que é jogado no browser da Internet, somos um treinador de uma equipa de futebol e acompanhamos a nossa equipa na liga contra outros utilizadores. Joga-se em
www.hattrick.org
Espero que as informações tenham sido úteis e desejo a todos muito divertimento e lazer porque também merecemos.
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domingo, 5 de julho de 2009
Da colher à bengala branca, do prato à rua

Profª. Drª. Sonia B. Hoffmann
Colocadas lado a lado, a colher e a bengala branca podem não apresentar, para muitas pessoas, uma relação sequencial e funcional entre si. No entanto, a criança que (con)vive com a cegueira será extremamente beneficiada, em diversos aspectos, com o manejo de ambos os objetos ou instrumentos.
Entretanto, a disponibilização destes objetos para seu uso pela criança cega, na fase inicial da infância, é ainda questionada e prorrogada pela grande maioria das famílias, especialmente por quem exerce a função materna, dificultando o desenvolvimento de habilidades motoras e psicomotoras para a alimentação e a locomoção independentes.
Assim, este artigo tem a proposta de estabelecer a correlação presente entre o uso da colher e da bengala no cotidiano da criança cega, a partir de condições motoras-perceptuais e funções intelectuais análogas, abordando-se a colher como instrumento de manejo prévio ao uso da bengala.
A colher e a bengala como instrumentos de exploração do espaço
Uma colher e uma bengala branca são, para a criança cega, ferramentas manuais de ação para a realização de um trabalho que pode ser feito próximo ou distante do seu corpo com maior ou menor êxito, de acordo com a habilidade de manipulação manual desenvolvida pela criança (Cutter, 1992). Desse modo, como sugere o autor, a colher pode ser considerada a precursora da bengala, pois ambas as ferramentas gerenciam o espaço: a colher, o espaço do prato; a bengala, o espaço do chão.
Inicialmente centrada em si e gradativamente abrindo-se ao mundo, a criança cega observa e recolhe do seu ambiente informações que oportunizam a base de formação de um conjunto de habilidades motoras e psicossociais fundamental para sua construção, enquanto sujeito, e para o seu desenvolvimento, enquanto corpo. Para tal, será preciso que aconteça a inclusão de instrumentos mediadores, os quais servirão a ela como extensão do membro superior, estruturando-se e organizando-se mais rápida e praticamente o seu entendimento e conceituação do mundo e das relações existentes neste mundo que a envolve.
Nesse sentido, a manipulação de uma colher pela criança cega, tanto para a realização de atividades funcionais deste objeto quanto para alguma outra atividade lúdica, à qual o objeto colher serve aos propósitos infantis, desencadeia o desenvolvimento de habilidades manuais as quais serão transferidas para o manuseio da bengala branca a partir da funcionalidade desejada.
Sem a possibilidade de manusear a colher para sua alimentação independente, ela perde a oportunidade de vivenciar e construir seu conceito de ritmo, frequência e intervalo de tempo necessários no êxito da ação. Entre outros benefícios, ela também perde a oportunidade de constituir sua matriz de análise e de elaboração das concepções de profundidade, lateralidade e de volume.
Estas aprendizagens são naturalmente aplicadas entre um objeto e outro.
Com a manipulação e o manejo da colher e da bengala, a criança desenrola e evolui os conceitos e concepções para o campo do seu saber. Deste saber, desde que não seja impedida, acontece uma evolução para o campo da sua interação com o ambiente, transformando o saber e a interação, e todas as consequências deste saber e desta interação, como ferramentas e estratégias imprescindíveis ao alcance dos seus propósitos. Assim, por exemplo, seus conceitos de lateralidade e ritmo deslizam para o uso de um e de outro objeto, natural e circunstancialmente, com um ponto de intersecção na autonomia da ação e do produto desta ação: ou seja, na autonomia da alimentação ou da locomoção e no produto gerado por tais ações.
Com a manipulação livre da colher, a criança cega desenrola sua competência motora de preensão e desenvolve habilidades de sustentação, equilíbrio, coordenação e orientação espacial, organizando os movimentos e (re)conhecendo as similaridades e alterações captadas pela percepção tátil quando uma ação é mediada por um instrumento. A frequência e a continuidade do uso da colher viabilizam o refinamento gradativo das competências e habilidades motoras e psicomotoras, estruturais ou funcionais.
Segura e sustentada por um conhecimento internalizado e estruturado, a criança cega desliza este saber do uso bem sucedido da colher para uma utilização mais adequada e racional da bengala, uma vez que ela recolhe e decodifica com maior precisão e com menor necessidade de estímulos a informação do ambiente que sua bengala lhe oferece em função de já ter internalizado a dinâmica da percepção tátil-cinestésica por via indireta.
A forma de preensão destes objetos toma, evidentemente, sua diferenciação desde o refinamento da motricidade da criança desenvolvida na dimensão ergonômica do objeto propriamente dito. Todavia, igualmente nas preensões palmar e digital, tanto da colher quanto da bengala, a criança cega exercita suas potencialidades rumo à autonomia e à independência não apenas motora, mas cognitiva e psicossocial porque o alimentar-se e o locomover-se por suas próprias habilidades produz, no mínimo, efeitos positivos sobre sua autoestima e interação social.
O uso da colher e da bengala como estruturantes de relações psicocognitivas e psicossociais
A estruturação de relações psicocognitivas e psicossociais a partir do uso da colher e da bengala encontra sustentação em Leonhardt (1962).
Segundo essa autora, a edificação global da criança cega, inclusive o seu desenvolvimento motor, evolui sempre que houver a base de um bom desenvolvimento do ego, o qual, por sua vez, desenvolve-se sadiamente a partir de ótimas sensações de competência e eficácia.
Nesse sentido, a criança cega precisa que suas necessidades fundamentais de segurança e autonomia progressiva sejam potencializadas e respeitadas pelo outro, ou seja, por aqueles que vivem e convivem com ela. Quando o outro social, responsável pela educação da criança cega, limita ou impede que ela manipule objetos ( a colher e a bengala, neste caso) não possibilitando a ela a experiência e a vivência continuada da ação, consideramos que ele não está restringindo somente sua possibilidade em desenvolver a habilidade de alimentar-se ou locomover-se com autonomia.
Com sua superproteção, negação ou qualquer outro motivo emocional que sirva de barreira para este consentimento, está colocando também na trajetória da criança um sério entrave em sua construção como sujeito.
A restrição no uso direto da colher pode transmitir à criança cega uma dupla mensagem: que ela não seja capaz de encontrar, pegar e transportar o alimento à boca; que ela não seja capaz de construir sua independência e autonomia, nos diversos aspectos da vida, iniciando pela alimentação.
Relativamente a quem exerce a função do consentimento para o manuseio da colher, muitas leituras podem ser feitas sobre esta restrição.
Entretanto, parece que a principal encontra-se no fato de muitas mães ou outros familiares não conseguirem olhar para a inabilidade da criança cega, como se inabilidades motoras fossem exclusivamente para estas crianças e não para todas as crianças com pouca idade.
Estas dificuldades consensuais e de entendimento geram frustração, passividade e descrédito para ambos os lados. Crianças cegas habituam-se à espera, ao isolamento e à perda da criatividade, não se tornando curiosas e abandonando seu instinto de investigação e de análise da relação dos objetos com o ambiente. Tudo isso a conduz à inércia e ao desapego, pois, desde cedo, nela já foi inscrita a incapacidade e, consequentemente, não encontra estímulos para uma socialização sadia. Na mãe e demais familiares, estes sentimentos se potencializam porque eles passam a relacionar-se com a criança como um ser impedido, vitimizado e multidependente, tornando-se então sequestradores de oportunidades de crescimento e evolução da criança. O simples ato de alimentarem a criança cega por eles próprios, o que inicialmente era feito com prazer e satisfação, pode tornar-se com o tempo uma obrigação e um transtorno.
A criança não fica indiferente a este comportamento e à decodificação de tal sentimento, reproduzindo-se nela e reforçando-se os sentimentos de baixa autoestima, confiança e iniciativa, ou seja, instala-se um ciclo cumulativo e nocivo de sentimentos destrutivos.
Se para o manejo independente da colher muitos familiares têm dificuldade de aceitação, o que então esperar em termos da sua dificuldade em visualizar a criança cega manejando uma bengala?
O manejo e o domínio no uso da bengala não proporcionam à criança cega tão-somente a diversificação e a qualificação das suas experiências locomotoras obtidas através do exercício das suas habilidades motoras e cognitivas. Esta ação provoca o autoconhecimento e a vivência da dicotomia confronto-resolução, possibilitando o desenvolvimento da confiança e da segurança em suas competências e (re)ações corporais e intelectuais, bem como a constatação das suas limitações ou possibilidades frente ao ambiente.
Diante destas capacidades e habilidades, a criança cega passa a vivenciar e experenciar com mais frequência sua circulação no ambiente e, com isto, a oportunidade do conhecimento real e não apenas discursivo dos objetos, o conhecimento de (re)ações afetivas provindas dela e das demais pessoas e a qualificação da sua socialização em função da ampliação dos seus contatos sociais e culturais.
Conclusão
A oportunidade para o uso e manejo independentes da colher pela criança cega assume um papel de fundamental importância na aquisição de habilidades motoras manuais, uma vez que as sensações propioceptivas e cinestésicas da mão, seu tato e as formas de preensão permitem a esta criança estabelecer limites de espaço mediante a percepção do contorno, da textura, da consistência e do volume dos objetos, substâncias e demais composições.
Essas competências, no momento do uso e manuseio da bengala, possibilitam à criança cega a transferência de conhecimentos e a facilitação no processo de decodificação das informações táteis obtidas por mediação deste instrumento, ampliando e agilizando os benefícios trazidos por uma locomoção independente e autônoma.
Desse modo, uma fundamental relação entre colher e bengala toma forma e percebe-se nesta relação a constituição de um conjunto de aquisições de habilidades motoras, cognitivas, sociais e afetivas que autorizam a criança para a passagem da exploração do ambiente do prato para a exploração do ambiente da rua.
Bibliografia
- ARRÁEZ MARTÍNEZ, Juan Miguel. Motricidad, autoconcepto y integración de niños ciegos. Granada [s.n.] 1998.
- CUTTER, Joe. The need for "pre-canes" fact or fancy? Future Reflections, New York, v.20, n.3, Fall 2001. > Acesso em: 20 jul. 2002
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infants, children, adolescents, adults. 3rd ed. Madison: Brown & Benchmark, 1995. Cap.4: Motor development; a theoretical model. p.79-98.
- HATWELL, Y. Privation sensorielle et intelligence; effects de la cécité précoce sur la genese des structures logiques de l'intelligence.
Paris: Presses Universitaires de France, 1966.
- HOFFMANN, Sonia B. Dificuldades no desenvolvimento motor e a orientação e mobilidade da criança cega. Revista Perfil, Porto Alegre, v.1, n.1, p.38-41, 1997.
- LEONHARDT, Mercè. El bebé ciego: primera atención; un enfoque pedagógico. Barcelona: Masson, 1992a. (Colección de Psicopedagogía y Lenguaje)
- LEVIN, Esteban. A infância em cena: constituição do sujeito psicomotor. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
- LUCERGA REVUELTA, Rosa. Palmo a palmo: la motricidad fina y la conducta adaptativa a los objetos en los niños ciegos. Madrid: ONCE [s.d]
- POGRUND, Rona L.; FAZZI, Diane L.; LAMPERT, Jessica S. Early focus:
working with young blind and visually impaired children and their families. New York: American Foundation for the Blind, 1992.
- UNGAR, S; BLADES, M.; SPENCER, C. Teaching visually impaired children to make distance judgement from a tactile map. Journal of Visual Impairment and Blindness, New York, v.91, n.2, p.163-174, Mar./Apr.
1997.
[ermitida a divulgação e a reprodução deste material desde que citada a fonte]
Fonte: http:\\www.diversidadeemcena.net
domingo, 14 de junho de 2009
Como os cães-guia, oferecidos pelo Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social, dão autonomia e elevam a autoestima de deficientes visuais

PARCERIA
A advogada Thays Martinez e o cão-guia Diesel, no metrô de São Paulo. O labrador a acompanha a todos os lugares e deu-lhe uma nova mobilidade
CÃES GUIA: AMIGOS MUITO E SEMPRE FIÉIS : VEJAM MAIS EM : http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI77101-15228,00-PROCURASE+UM+COMPANHEIRO+FIEL.html
A bengala é um símbolo muito forte da deficiência visual”, diz a advogada Thays Martinez, de 35 anos. “Tinha a sensação de que as pessoas me olhavam como se eu fosse uma coitadinha.” Há uma década, Thays se livrou do peso emocional da bengala e adotou algo bem mais simpático para lhe abrir caminhos: um cão-guia. Boris, um cruzamento das raças labrador e golden retriever, revelou não ser um cachorro comum. “O dia mais feliz da minha vida foi quando caminhamos por uma trilha ecológica, sem o estresse de bater nas coisas e sem a companhia de outra pessoa. Nunca tinha me sentido tão livre”, diz Thays. A parceria com Boris não só elevou a autoestima de Thays como mudou seu destino.
Em 2002, a advogada fundou o Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social (Iris), uma ONG que trabalha para os deficientes visuais. Vinte dos cerca de 60 cães-guia em atividade no país foram importados pelo Iris, sem nenhum custo para os usuários, graças a uma parceria com a ONG americana Leader Dogs for the Blind. “Temos 2 mil deficientes na fila de espera por um cão”, diz Thays
Basher, um labrador amarelo, chegou ao Brasil no fim do ano passado. “Foi como se eu tivesse tido um filho. Nunca tinha me sentido tão feliz”, diz Daniela Ferrari Kovacs, de 29 anos. “As pessoas sempre cuidaram de mim. Eu não sabia que também seria capaz de cuidar de outro ser.” Basher e Dani fazem sucesso por onde passam. Na rua, pedestres param para tirar dúvidas sobre o trabalho do cão ou para elogiar a beleza dele – ou a dela. Alguns cometem o erro de tentar chamar a atenção de Basher colocando em risco a segurança de Dani. Com um sorriso no rosto e a voz doce, ela explica: “Ele é um cão-guia, não pode se distrair”. A chegada do cão fez com que as pessoas se aproximassem mais de Dani, e de maneira mais cordial. Enquanto ela dá expediente no Tribunal Regional do Trabalho, na região central de São Paulo, Basher repousa sobre um colchãozinho colorido atrás da mesa. A cada três horas, Dani desce com ele ao “banheiro”. Carrega um saquinho plástico para eventuais resíduos. Basher é um cão chique: é bilíngue (atende a comandos em inglês e português), viaja de avião, vai ao cabeleireiro, à academia e à terapia. “Se eu soubesse que um cão-guia melhoraria tanto minha vida, teria procurado um muito antes”, diz Dani.
No momento, o Iris busca voluntários para o trabalho de socialização dos cães e recursos de parceiros com dois objetivos: montar um centro de treinamento completo em São Paulo e importar animais para começar uma linhagem de cães-guia brasileiros. Outro problema, ainda sem solução, é que há poucos treinadores para os animais. A formação dos treinadores é muito complexa, dura cerca de quatro anos e, tanto quanto o Iris saiba, existem apenas três profissionais especializados em cães-guia no Brasil – um para cada escola existente no país.
Treinar um cão-guia é uma tarefa cara (R$ 20 mil) e complexa. O processo é dividido em três etapas. Primeiro, o filhote passa ao menos um ano com uma família voluntária, que tem o dever de ensiná-lo a se comportar bem em qualquer ambiente. Depois, fica de três a cinco meses na escola para aprender o trabalho de guia – como andar em linha reta, parar ao se aproximar do meio fio ou de escadas e desviar de obstáculos. Só na terceira fase o cão é apresentado ao deficiente visual, e os dois treinam juntos. Para que a parceria dê certo, o perfil do cão tem de combinar com o do dono. Um guia muito ativo se ajusta melhor a um usuário que não fique muito parado. Alguém apressado pode não se adaptar a um cão-guia com passadas lentas. De acordo com o Ministério da Saúde, há mais de 550 mil cegos e 3,1 milhões de pessoas com baixa visão no Brasil. “Considerando a proporção de deficientes visuais que usam cães-guia no exterior, nossa demanda é de mais de 10 mil cães”, afirma Moisés Vieira Júnior, diretor técnico e treinador do Iris.
Esta é uma reportagem do Projeto Generosidade. Todas as revistas e sites da Editora Globo participam desta ação por um mundo melhor. Conheça os detalhes do projeto em
PROJETOGENEROSIDADE.COM.BR
A relação entre deficientes visuais e cães-guia é antiga. A primeira tentativa sistemática de treinamento teria ocorrido no fim do século XVIII, no hospital parisiense Les Quinze-Vingts. Durante a Primeira Guerra Mundial, cães começaram a ser treinados na Alemanha para guiar soldados que ficaram cegos. De lá para cá, muitas escolas foram abertas pelo mundo. As mais tradicionais selecionam geneticamente matrizes de labrador, golden retriever e pastor-alemão. Dessas raças, ou do cruzamento entre elas, saem os animais mais adequados ao trabalho de guia.
Coisas simples para quem enxerga, como ir à padaria ou dar uma volta sozinho no quarteirão, são importantes para um deficiente visual. No caso de Thays, foi o cão quem lhe deu segurança para deixar a casa dos pais e ir morar sozinha. E se encher de coragem para largar a estabilidade do emprego no Ministério Público e se dedicar a outras áreas do Direito. A relação com Boris motivou Thays a processar o Metrô de São Paulo, que proibiu o cão de guiá-la dentro da área da empresa. E a batalhar pela aprovação de duas leis – uma estadual e outra federal – que permitiram o acesso de cães-guia a locais públicos.
No ano passado, Thays notou que chegara a hora de aposentar Boris. Ele já não tinha a energia de antes. Depois de uma longa caminhada pela Avenida Paulista, Boris se jogou no chão para descansar. Em outra ocasião, Thays bateu o rosto numa escada por desatenção dele. “Foi uma decisão muito dolorosa”, afirma Thays. “Quando Diesel (o guia substituto) chegou, Boris começou a me ignorar e ficou meio deprimido. Eu pegava a coleira para sair, os dois vinham querendo colocá-la.” Há duas semanas, Boris, de 10 anos, se mudou para a casa de uma amiga de Thays. Parece satisfeito.
CREDITO : REVISTA VEJA
sábado, 30 de maio de 2009
CEGOS E DEFICIENTES VISUAIS - Aprender a ver uma nova vida
Aprender a ver uma nova vida
Submetido em Sábado, 24/01/2009 - 20:48 por Lerparaver
Com o tema: Deficiência visual Educação Emprego Reabilitação Vida diária
Perder a visão na fase adulta. Há cada vez mais pessoas a perder a visão na fase adulta, principalmente devido a diabetes e VIH. Muitas isolam--se e fecham-se em casa, porque têm medo de cair em buracos ou chocar contra coisas. Mas a solução existe. Há técnicos que ensinam os cegos a andar em segurança e a fazer quase tudo o que é necessário para prosseguir uma vida normal, com estudos, emprego, família e vida social. "Não nos podemos entregar à doença", diz Carlos Manuel Ferreira, que tem 41 anos e cegou em 2005. Na quinta-feira, etiquetas em braile passaram a identificar os artigos que os deficientes visuais compram nos hipermercados
Técnicos ensinam pessoas a ultrapassar deficiência visual
De um momento para o outro, a vida de luz e cor de Teresa Simões mergulhou num mundo de trevas, em que tudo se resume numa palavra: cegueira. Quem perde a visão já na fase adulta considera que "é muito pior do que ter nascido cego". Ficam desorientados e perdidos, sem saberem onde estão nem para onde vão. Alguns até chegam a dizer que "a melhor coisa que podia acontecer era morrer". Mas a vida continua para além da penumbra que lhes tolda a vista. Têm de aprender a usar melhor os outros sentidos com a ajuda de pessoal técnico que os ensina a ver um novo mundo. Há cegos que conseguiram aprender tudo tão bem que garantem ter "uma vida normal como as outras pessoas".
Numa tarde de sábado, foi essa vida normal que a equipa de reportagem do DN encontrou ao entrar num apartamento da Quinta do Pinheiro, em Odivelas. Quem depara com Helena Cristina Fernandes a brincar na sala com as duas filhas gémeas está longe de imaginar que aquela mulher de 42 anos é cega. Tal como o seu marido, José Manuel Fernandes. As crianças, Marta e Márcia, de quatro anos, são normavisuais - vêem normalmente.
Lourinha e muito faladora, Marta ouve a mãe perguntar: "O que é que a mãe é ao pai?" E responde prontamente: "É marida." De grandes olhos azuis, Márcia é mais calminha que a irmã. As duas dizem que os pais, quando eram miúdos, "deviam ser muito traquinas. Caíram e ficaram mal dos olhos. Têm de ir ao médico arranjar os olhos".
Helena estava preocupada com a chegada da equipa do DN, porque tinha lá ido o técnico instalar a TV por cabo e tinha-se atrasado. "Eu gosto mais de ver a SIC Notícias, o Canal História e o National Geographic. O meu marido quer mais é o desporto e elas gostam é do Canal Panda", contou.
"Nunca vi muito bem"
A trabalhar desde há seis anos no serviço informativo do call center da Segurança Social, Helena Cristina revelou já ter avançado com um requerimento "para mudar para uma função técnica", onde possa aplicar o curso de Gestão de Recursos Humanos e Organização Estratégica, que terminou em Julho de 2008, no Instituto Superior de Línguas e Administração. Antes foi telefonista durante sete anos, no Hospital de S. José, em Lisboa.
Mas, até alcançar esta vida normal, Helena teve de lutar muito para aprender a ver de outra maneira. Algarvia de Benafim, no concelho de Loulé, recorda nunca ter visto "muito bem. Por isso, só estudei até à 4.ª classe na escola normal. Ficava mais à frente e perto da janela, para ter mais luz. A professora dava licença para me levantar e ir ver o que ela tinha escrito no quadro".
Para continuar os estudos, "tinha de ir para uma escola em Loulé. Mas não dava, porque só havia uma camioneta de manhã para ir às aulas e outra ao fim da tarde para voltar a casa. Como a essa hora já havia pouca luz, eu não conseguia ver para regressar a casa. Deixei de estudar".
Só aos 22 anos, depois de o médico Luís Cardia dizer que "não havia cura", Helena foi para o Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos, perto de Santa Apolónia, em Lisboa. "Estive lá seis meses em internato e, de 15 em 15 dias, ia de autocarro sozinha para o Algarve. Para aprender a viver com a deficiência, ensinaram braile, mobilidade na rua e actividades domésticas", recordou Helena, adiantando que faz "toda a lida da casa".
Depois voltou para junto dos pais, no Algarve, que vêem normalmente, tal como a irmã. "Procurei emprego durante um ano, mas não consegui, porque só tinha a 4.ª classe. Resolvi mudar-me para Lisboa e trabalhei ano e meio num lar de raparigas cegas, em Chelas. Estudei à noite em escolas de ensino normal, até terminar o 12.º ano", referiu.
"Só tive problemas nos 8.º e 9.º anos, porque a professora de História não queria cegos nas aulas dela. Mas estudei muito e tive 19,6 valores no exame. No fim, a professora deu- -me os parabéns e já me aceitava nas aulas. Depois até me escreveu uma carta em braile a pedir-me desculpa", recordou.
Na Acapo - Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal, "fiz um curso de recepcionista/telefonista. Entre 2000 e 2004 fui directora da Acapo", contou Helena, adiantando que em 2003 fez provas específicas e entrou para a faculdade.
Desde que tem as gémeas, a sua vida complicou-se um pouco, mas Helena não tardou a encontrar solução: "O infantário fica na Pontinha, mas era complicado ir de autocarro para lá e andar com as duas meninas pela mão, porque assim não podia pegar na bengala para me orientar. Então decidimos comprar um carro e pedimos a uma amiga para o conduzir e levar as meninas à escola e trazê-las a casa."
Escola inglesa foi solução
O caso do pai das gémeas, José Manuel Fernandes, de 45 anos, é menos atribulado, porque sempre viveu em Lisboa: "Aos três anos, tive um tumor raro difícil de detectar. Desenvolve-se no fundo dos olhos e os pais confundem aquilo com uma ramela. Limpam, aquilo desaparece, mas volta e vai sempre agravando. Depois já é tarde para tratar, porque se propaga rapidamente para o interior."
"Fiquei cego dos dois olhos ainda em criança", relatou José Manuel, lembrando que, para começar a estudar, em 1968, "a única solução foi uma escola inglesa. Fui o primeiro cego em Portugal a frequentar escolas de ensino normal, mas em Inglaterra isso já era comum".
Foi revisor de braile para o Ministério da Educação, deu formação profissional em braile e foi director da Acapo. Em 2001 concluiu o curso de Psicologia. Actualmente é psicólogo na Acapo.
Segundo José Manuel, "até aos anos 80, muitos cegos trabalhavam em linhas de montagem de fábricas, porque o trabalho é tão repetitivo que nem é preciso ver. Estudos até dizem que eles têm mais concentração, porque não se distraem com outras coisas. Depois automatizaram a produção, despediram-nos e eles não conseguiram arranjar outro trabalho. Passaram a pedir esmola".
"Há 12 anos a tactear"
Madalena, de 28 anos, vive na Covilhã e passou dois meses no Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos, em Lisboa. Encontrámo-la na cozinha do centro a fazer sopa, no âmbito das aulas de actividades da vida doméstica. Além da sua visão estar abaixo dos 10%, só ouve de um ouvido.
"Desde há 12 anos - quando a visão começou a reduzir - que ando a tactear, porque nunca me indicaram este centro ou outro sítio para reabilitação", disse ao DN. "Só vejo uma área muito pequena. Não consigo ver uma pessoa inteira, mas apenas um bocadinho dela de cada vez", explicou.
"Já sou casada há sete anos e só este ano é que o meu marido se apercebeu disso, embora eu já lhe tivesse falado no meu problema logo quando começámos a namorar, há dez anos", contou.
Os seus dois filhos - uma menina de três anos e um rapaz com seis - "não têm qualquer problema de visão nem de audição", esclareceu.
"Uma pessoa não é incapaz"
No mesmo centro de reabilitação, Teresa Simões, de 40 anos, aprendeu que "uma pessoa cega não é uma pessoa incapaz". Natural de Toledo, no concelho da Lourinhã, só aos 19 anos descobriu a doença, "que se foi desenvolvendo muito lentamente. Pelos 27 anos houve uma evolução rápida, devido à morte do meu irmão", explicou.
Estudou até ao 11.º ano e desistiu por considerar que "não conseguia continuar, por ver mal", lembrou. Depois trabalhou como secretária e mais tarde como auxiliar de educação num jardim de infância, na Lourinhã, até 1996.
Nesse ano "piorei e achei que devia fazer reabilitação e começar uma vida nova, longe dali e longe de quem me conhecia. Pedi transferência para Lisboa e comecei por ter aulas no Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos".
Foi reintegrada como auxiliar na Escola Nuno Gonçalves, em Lisboa, e passou para a central telefónica da Direcção-Geral do Ensino Superior.
Salienta que "foi muito difícil o período entre descobrir a doença e cegar. Fui a muitos médicos, um disse que havia de chegar um dia e nem um café ia conseguir fazer. Isso foi muito pior do que me dizer que ia ficar cega. Afinal, consigo fazer um café e muito mais que isso".
"Ceguei em 2000. Nesse ano fui fazer o 12.º ano e, entre mais de dois mil candidatos para a Direcção de Serviços de Informação e Documentação do Ministério da Educação, fiquei em primeiro lugar. E é aqui que continuo a trabalhar", contou.
Hoje anda em passo acelerado pela rua, mas nem sempre foi assim. "Em 2002 tive um acidente. Nunca vi o Metro de Lisboa e só conhecia o do Canadá, em que as carruagens estão todas ligadas por mangas. Com a bengala à frente, detectei um espaço livre e pensei que fosse a porta. Avancei e caí entre as duas carruagens para a linha. Alguém viu, gritou e o metro não avançou. Parti o nariz."
"Fiquei com fobias e com medo de andar na rua e no metro", confessou. "Quando chegava a casa, respirava de alívio e pensava: consegui passar mais um dia e voltar sã e salva", lembrou.
"Sou muito vaidosa e dou importância à imagem. Marco os frasquinhos de verniz das unhas com fita gomada ou tiro bocadinhos dos rótulos para distinguir as várias cores", explicou Teresa.
Na sua vivenda na Quinta do Conde, onde vive sozinha, faz todas as tarefas. "Passar a ferro é fácil, porque vou tacteando para sentir se a roupa já está direita. E não pensem que alguém passa a ferro melhor do que eu", disse com um grande sorriso de orgulho.
"Não me sinto dependente e acho que estou muito bem integrada. Ando na ginástica e na hidroginástica e costumo sair com os amigos ao bar, ao teatro e à discoteca. E danço no meio da pista. Não fico lá sentada a um canto", esclareceu.
"Vejo à minha maneira"
Carlos Manuel Ferreira, de 41 anos, deixou de ver em 2005. Antes de começar a frequentar aulas de reabilitação, sentia-se completamente perdido. "Até cheguei a pensar que a melhor coisa que me podia acontecer era morrer", confessou ao DN.
Segundo explicou, o seu caso "é hereditário da parte da mãe, que ainda vê qualquer coisa". Entre quatro irmãos, dois têm problemas de visão. Os outros têm visão normal e nem usam óculos.
"Andei na escola normal, mas não conseguia ler no livro. Tinha de ir ao pé do quadro ver o que a professora escrevia. Só fiz a terceira classe", recordou, adiantando que "o médico dizia que pelos 40 anos ficaria mesmo sem ver. A visão foi diminuindo muito lentamente. Só me fui apercebendo quando comecei a tropeçar nas coisas".
Trabalhou durante 22 anos na distribuição de produtos alimentares e bebidas. No último ano de serviço, em 2005, "já não via, mas conseguia fazer o trabalho, porque já sabia de cor onde ficavam as lojas e onde tinha de ir", explicou esclarecendo que apenas vê "a claridade e o escuro. Não consigo ver a pessoa que está à minha frente". Por isso, ficou de baixa e depois passou à reforma.
"As técnicas da Acapo é que me deram a mão e me fizeram subir, desde há quatro anos. Sentia que tinha caído num buraco, quando deixei de ver", contou Carlos Manuel, considerando que, "a nível psicológico, é mais complicado uma pessoa ver e depois perder a visão. É pior do que ter nascido já sem ver". Para aprender a ser autónomo, também frequentou o Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos.
Residente na Pontinha, em Odivelas, lembra que, "no início, tinha o complexo de andar de bengala. Quando me perguntavam o que tinha acontecido, eu nem sabia o que responder. Era um desconsolo tão grande"...
"Sentia-me muito mal. Ficava fechado em casa. Chegava a estar na cama e não queria ir para as aulas de reabilitação. Estava quase a desistir", conta Carlos, com um ar desolado. Agora diz ter uma certeza: "Não nos podemos entregar à doença."
Actualmente, frequenta o programa Novas Oportunidades, onde escreve num computador adaptado. "Estou a terminar a 4.ª classe e quero continuar os estudos. Também tenho aulas de carpintaria, braile e informática na Associação Portuguesa de Deficientes Visuais", revelou.
"As aulas de reabilitação deram-me uma nova visão da vida. Agora consigo ver. Vejo à minha maneira. Já fui ver teatro de revista. E gostei", frisou.
"No outro dia pedi a um vizinho para me emprestar a bicicleta dele. E andei mesmo de bicicleta, sem chocar com nada e sem pôr os pés no chão. Ele nem queria acreditar no que estava a ver", relatou Carlos Manuel, cheio de orgulho.
http://dn.sapo.pt/2009/01/24/sociedade/aprender_a_uma_nova_vida.html
Processo de reabilitação só começa depois de "fazer o luto da doença"
Milagre. "Todos os cegos têm a secreta esperança de voltar a ver", diz a directora do centro de reabilitação
Quando ficam cegas, "as pessoas chegam aqui completamente perdidas, todas encolhidas, enroscadas, quase em posição fetal para se protegerem, porque têm medo de cair ou chocar contra as coisas", diz Conceição Luís, directora do Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos, em Santa Apolónia, Lisboa. "São pessoas que viam normalmente e, de repente, cegaram e ficaram perdidas", referiu ao DN.
"Trabalhamos imenso na recuperação da auto-estima. No primeiro mês e meio, a nossa função principal é tirar as pessoas do buraco em que se encontram", explicou, pois "entraram em depressão e ainda não aceitam o facto de terem cegado. Têm de fazer o luto. É preciso que a pessoa aceite que está cega".
"Não posso ensinar braile nem pôr a bengala na mão de uma pessoa que ainda não assumiu que está cega", esclarece a directora do centro, revelando que "todos têm a secreta esperança de que vão voltar a ver. Acreditam que a ciência vai evoluir e resolver o problema".
Salienta que "uma pessoa só está reabilitada quando está integrada. Por isso, tentamos colocar as pessoas em postos de trabalho, através dos serviços do Instituto do Emprego e Formação Profissional. Mas é muito difícil, porque os responsáveis das empresas ainda não estão muito receptivos. O objectivo é colocá-los na função que queriam desempenhar antes de ficarem cegos".
"Se não ficarem com uma actividade, eles voltam a fechar-se em casa e a isolar-se. A solução é um emprego ou outra formação, como, por exemplo, o programa Novas Oportunidades para os que não têm a escolaridade completa", declarou.
E dá um exemplo: "Tive aqui um jovem de 20 anos, com descolamento da retina, que tinha feito várias operações e chegou a uma altura em que já não havia solução. Cegou."
"Nas aulas participava e era expert em informática. Quando não estava nas aulas, ficava fechado no quarto. Perguntámos-lhe porque se isolava assim e ele respondeu: "Quando não estou nas aulas, durmo, porque enquanto durmo sonho e enquanto sonho eu vejo", contou.
"Está a tirar um curso de programação informática e é DJ numa discoteca", revelou Conceição Luís, considerando que, "se ele fosse embora daqui sem ter uma colocação noutra actividade, acabaria por se fechar em casa e ficar outra vez perdido".
Adianta que, "normalmente, eles dizem que após terem cegado ainda conseguem imaginar as coisas às cores. Mas depois passa a ser tudo a preto e branco".
Este centro, que pertence à Segurança Social, existe há 46 anos e tem capacidade para 22 internos, que vêm de fora de Lisboa e ali permanecem durante o processo de reabilitação. Tudo é gratuito, incluindo refeições e alojamento. Quem vive na capital frequenta as aulas em regime externo.
Os períodos de reabilitação "são normalmente de três meses para utentes com baixa visão e de cinco meses a um ano para casos de cegueira total", informou a directora.
Ali ensinam mobilidade de quatro níveis, como movimentarem-se no interior do centro, na zona envolvente, nos transportes públicos e na área de residência. No programa de actividades da vida diária, a equipa de reportagem do DN encontrou Maria Bárbara na cozinha a receber formação e a confeccionar um bolo de ananás. Residente em Vila Viçosa, vê abaixo dos 10%. "Desde os 17 anos que tenho baixa visão, mas há cinco anos, devido a uma depressão, o problema agravou-se muito", contou Bárbara, que trabalhava no Centro de Saúde de Vila Viçosa, mas desde há três anos está em casa.
"Os meus filhos já são crescidos e vão-me ajudando, mas não me sentia muito bem a cozinhar e às vezes atrapalhava-me, porque não conseguia ver as coisas. Por isso vim para aqui. Agora já consigo fazer quase tudo mais à vontade", relatou, com um sorriso de satisfação.
A directora do centro revela que também acompanham os utentes "ao teatro, ao cinema e a outros eventos para perceberem que podem continuar a ter vida social".
Foram ver o filme Ensaio sobre a Cegueira, na antestreia, com auscultadores que lhes transmitiam por voz o que passava nas legendas. Salienta que, "no final do filme, um cego recupera a visão. Ficaram com aquela mensagem de esperança que os cegos podem voltar a ver".
"Gostei muito do filme. Aquele retrato das pessoas que perdem a visão de repente é mesmo o estado em que elas nos chegam aqui ao centro: completamente perdidas", observou Conceição Luís.
DANIEL LAM
Fonte: http://dn.sapo.pt/2009/01/24/sociedade/processo_reabilitacao_comeca_depo...
Submetido em Sábado, 24/01/2009 - 20:48 por Lerparaver
Com o tema: Deficiência visual Educação Emprego Reabilitação Vida diária
Perder a visão na fase adulta. Há cada vez mais pessoas a perder a visão na fase adulta, principalmente devido a diabetes e VIH. Muitas isolam--se e fecham-se em casa, porque têm medo de cair em buracos ou chocar contra coisas. Mas a solução existe. Há técnicos que ensinam os cegos a andar em segurança e a fazer quase tudo o que é necessário para prosseguir uma vida normal, com estudos, emprego, família e vida social. "Não nos podemos entregar à doença", diz Carlos Manuel Ferreira, que tem 41 anos e cegou em 2005. Na quinta-feira, etiquetas em braile passaram a identificar os artigos que os deficientes visuais compram nos hipermercados
Técnicos ensinam pessoas a ultrapassar deficiência visual
De um momento para o outro, a vida de luz e cor de Teresa Simões mergulhou num mundo de trevas, em que tudo se resume numa palavra: cegueira. Quem perde a visão já na fase adulta considera que "é muito pior do que ter nascido cego". Ficam desorientados e perdidos, sem saberem onde estão nem para onde vão. Alguns até chegam a dizer que "a melhor coisa que podia acontecer era morrer". Mas a vida continua para além da penumbra que lhes tolda a vista. Têm de aprender a usar melhor os outros sentidos com a ajuda de pessoal técnico que os ensina a ver um novo mundo. Há cegos que conseguiram aprender tudo tão bem que garantem ter "uma vida normal como as outras pessoas".
Numa tarde de sábado, foi essa vida normal que a equipa de reportagem do DN encontrou ao entrar num apartamento da Quinta do Pinheiro, em Odivelas. Quem depara com Helena Cristina Fernandes a brincar na sala com as duas filhas gémeas está longe de imaginar que aquela mulher de 42 anos é cega. Tal como o seu marido, José Manuel Fernandes. As crianças, Marta e Márcia, de quatro anos, são normavisuais - vêem normalmente.
Lourinha e muito faladora, Marta ouve a mãe perguntar: "O que é que a mãe é ao pai?" E responde prontamente: "É marida." De grandes olhos azuis, Márcia é mais calminha que a irmã. As duas dizem que os pais, quando eram miúdos, "deviam ser muito traquinas. Caíram e ficaram mal dos olhos. Têm de ir ao médico arranjar os olhos".
Helena estava preocupada com a chegada da equipa do DN, porque tinha lá ido o técnico instalar a TV por cabo e tinha-se atrasado. "Eu gosto mais de ver a SIC Notícias, o Canal História e o National Geographic. O meu marido quer mais é o desporto e elas gostam é do Canal Panda", contou.
"Nunca vi muito bem"
A trabalhar desde há seis anos no serviço informativo do call center da Segurança Social, Helena Cristina revelou já ter avançado com um requerimento "para mudar para uma função técnica", onde possa aplicar o curso de Gestão de Recursos Humanos e Organização Estratégica, que terminou em Julho de 2008, no Instituto Superior de Línguas e Administração. Antes foi telefonista durante sete anos, no Hospital de S. José, em Lisboa.
Mas, até alcançar esta vida normal, Helena teve de lutar muito para aprender a ver de outra maneira. Algarvia de Benafim, no concelho de Loulé, recorda nunca ter visto "muito bem. Por isso, só estudei até à 4.ª classe na escola normal. Ficava mais à frente e perto da janela, para ter mais luz. A professora dava licença para me levantar e ir ver o que ela tinha escrito no quadro".
Para continuar os estudos, "tinha de ir para uma escola em Loulé. Mas não dava, porque só havia uma camioneta de manhã para ir às aulas e outra ao fim da tarde para voltar a casa. Como a essa hora já havia pouca luz, eu não conseguia ver para regressar a casa. Deixei de estudar".
Só aos 22 anos, depois de o médico Luís Cardia dizer que "não havia cura", Helena foi para o Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos, perto de Santa Apolónia, em Lisboa. "Estive lá seis meses em internato e, de 15 em 15 dias, ia de autocarro sozinha para o Algarve. Para aprender a viver com a deficiência, ensinaram braile, mobilidade na rua e actividades domésticas", recordou Helena, adiantando que faz "toda a lida da casa".
Depois voltou para junto dos pais, no Algarve, que vêem normalmente, tal como a irmã. "Procurei emprego durante um ano, mas não consegui, porque só tinha a 4.ª classe. Resolvi mudar-me para Lisboa e trabalhei ano e meio num lar de raparigas cegas, em Chelas. Estudei à noite em escolas de ensino normal, até terminar o 12.º ano", referiu.
"Só tive problemas nos 8.º e 9.º anos, porque a professora de História não queria cegos nas aulas dela. Mas estudei muito e tive 19,6 valores no exame. No fim, a professora deu- -me os parabéns e já me aceitava nas aulas. Depois até me escreveu uma carta em braile a pedir-me desculpa", recordou.
Na Acapo - Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal, "fiz um curso de recepcionista/telefonista. Entre 2000 e 2004 fui directora da Acapo", contou Helena, adiantando que em 2003 fez provas específicas e entrou para a faculdade.
Desde que tem as gémeas, a sua vida complicou-se um pouco, mas Helena não tardou a encontrar solução: "O infantário fica na Pontinha, mas era complicado ir de autocarro para lá e andar com as duas meninas pela mão, porque assim não podia pegar na bengala para me orientar. Então decidimos comprar um carro e pedimos a uma amiga para o conduzir e levar as meninas à escola e trazê-las a casa."
Escola inglesa foi solução
O caso do pai das gémeas, José Manuel Fernandes, de 45 anos, é menos atribulado, porque sempre viveu em Lisboa: "Aos três anos, tive um tumor raro difícil de detectar. Desenvolve-se no fundo dos olhos e os pais confundem aquilo com uma ramela. Limpam, aquilo desaparece, mas volta e vai sempre agravando. Depois já é tarde para tratar, porque se propaga rapidamente para o interior."
"Fiquei cego dos dois olhos ainda em criança", relatou José Manuel, lembrando que, para começar a estudar, em 1968, "a única solução foi uma escola inglesa. Fui o primeiro cego em Portugal a frequentar escolas de ensino normal, mas em Inglaterra isso já era comum".
Foi revisor de braile para o Ministério da Educação, deu formação profissional em braile e foi director da Acapo. Em 2001 concluiu o curso de Psicologia. Actualmente é psicólogo na Acapo.
Segundo José Manuel, "até aos anos 80, muitos cegos trabalhavam em linhas de montagem de fábricas, porque o trabalho é tão repetitivo que nem é preciso ver. Estudos até dizem que eles têm mais concentração, porque não se distraem com outras coisas. Depois automatizaram a produção, despediram-nos e eles não conseguiram arranjar outro trabalho. Passaram a pedir esmola".
"Há 12 anos a tactear"
Madalena, de 28 anos, vive na Covilhã e passou dois meses no Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos, em Lisboa. Encontrámo-la na cozinha do centro a fazer sopa, no âmbito das aulas de actividades da vida doméstica. Além da sua visão estar abaixo dos 10%, só ouve de um ouvido.
"Desde há 12 anos - quando a visão começou a reduzir - que ando a tactear, porque nunca me indicaram este centro ou outro sítio para reabilitação", disse ao DN. "Só vejo uma área muito pequena. Não consigo ver uma pessoa inteira, mas apenas um bocadinho dela de cada vez", explicou.
"Já sou casada há sete anos e só este ano é que o meu marido se apercebeu disso, embora eu já lhe tivesse falado no meu problema logo quando começámos a namorar, há dez anos", contou.
Os seus dois filhos - uma menina de três anos e um rapaz com seis - "não têm qualquer problema de visão nem de audição", esclareceu.
"Uma pessoa não é incapaz"
No mesmo centro de reabilitação, Teresa Simões, de 40 anos, aprendeu que "uma pessoa cega não é uma pessoa incapaz". Natural de Toledo, no concelho da Lourinhã, só aos 19 anos descobriu a doença, "que se foi desenvolvendo muito lentamente. Pelos 27 anos houve uma evolução rápida, devido à morte do meu irmão", explicou.
Estudou até ao 11.º ano e desistiu por considerar que "não conseguia continuar, por ver mal", lembrou. Depois trabalhou como secretária e mais tarde como auxiliar de educação num jardim de infância, na Lourinhã, até 1996.
Nesse ano "piorei e achei que devia fazer reabilitação e começar uma vida nova, longe dali e longe de quem me conhecia. Pedi transferência para Lisboa e comecei por ter aulas no Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos".
Foi reintegrada como auxiliar na Escola Nuno Gonçalves, em Lisboa, e passou para a central telefónica da Direcção-Geral do Ensino Superior.
Salienta que "foi muito difícil o período entre descobrir a doença e cegar. Fui a muitos médicos, um disse que havia de chegar um dia e nem um café ia conseguir fazer. Isso foi muito pior do que me dizer que ia ficar cega. Afinal, consigo fazer um café e muito mais que isso".
"Ceguei em 2000. Nesse ano fui fazer o 12.º ano e, entre mais de dois mil candidatos para a Direcção de Serviços de Informação e Documentação do Ministério da Educação, fiquei em primeiro lugar. E é aqui que continuo a trabalhar", contou.
Hoje anda em passo acelerado pela rua, mas nem sempre foi assim. "Em 2002 tive um acidente. Nunca vi o Metro de Lisboa e só conhecia o do Canadá, em que as carruagens estão todas ligadas por mangas. Com a bengala à frente, detectei um espaço livre e pensei que fosse a porta. Avancei e caí entre as duas carruagens para a linha. Alguém viu, gritou e o metro não avançou. Parti o nariz."
"Fiquei com fobias e com medo de andar na rua e no metro", confessou. "Quando chegava a casa, respirava de alívio e pensava: consegui passar mais um dia e voltar sã e salva", lembrou.
"Sou muito vaidosa e dou importância à imagem. Marco os frasquinhos de verniz das unhas com fita gomada ou tiro bocadinhos dos rótulos para distinguir as várias cores", explicou Teresa.
Na sua vivenda na Quinta do Conde, onde vive sozinha, faz todas as tarefas. "Passar a ferro é fácil, porque vou tacteando para sentir se a roupa já está direita. E não pensem que alguém passa a ferro melhor do que eu", disse com um grande sorriso de orgulho.
"Não me sinto dependente e acho que estou muito bem integrada. Ando na ginástica e na hidroginástica e costumo sair com os amigos ao bar, ao teatro e à discoteca. E danço no meio da pista. Não fico lá sentada a um canto", esclareceu.
"Vejo à minha maneira"
Carlos Manuel Ferreira, de 41 anos, deixou de ver em 2005. Antes de começar a frequentar aulas de reabilitação, sentia-se completamente perdido. "Até cheguei a pensar que a melhor coisa que me podia acontecer era morrer", confessou ao DN.
Segundo explicou, o seu caso "é hereditário da parte da mãe, que ainda vê qualquer coisa". Entre quatro irmãos, dois têm problemas de visão. Os outros têm visão normal e nem usam óculos.
"Andei na escola normal, mas não conseguia ler no livro. Tinha de ir ao pé do quadro ver o que a professora escrevia. Só fiz a terceira classe", recordou, adiantando que "o médico dizia que pelos 40 anos ficaria mesmo sem ver. A visão foi diminuindo muito lentamente. Só me fui apercebendo quando comecei a tropeçar nas coisas".
Trabalhou durante 22 anos na distribuição de produtos alimentares e bebidas. No último ano de serviço, em 2005, "já não via, mas conseguia fazer o trabalho, porque já sabia de cor onde ficavam as lojas e onde tinha de ir", explicou esclarecendo que apenas vê "a claridade e o escuro. Não consigo ver a pessoa que está à minha frente". Por isso, ficou de baixa e depois passou à reforma.
"As técnicas da Acapo é que me deram a mão e me fizeram subir, desde há quatro anos. Sentia que tinha caído num buraco, quando deixei de ver", contou Carlos Manuel, considerando que, "a nível psicológico, é mais complicado uma pessoa ver e depois perder a visão. É pior do que ter nascido já sem ver". Para aprender a ser autónomo, também frequentou o Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos.
Residente na Pontinha, em Odivelas, lembra que, "no início, tinha o complexo de andar de bengala. Quando me perguntavam o que tinha acontecido, eu nem sabia o que responder. Era um desconsolo tão grande"...
"Sentia-me muito mal. Ficava fechado em casa. Chegava a estar na cama e não queria ir para as aulas de reabilitação. Estava quase a desistir", conta Carlos, com um ar desolado. Agora diz ter uma certeza: "Não nos podemos entregar à doença."
Actualmente, frequenta o programa Novas Oportunidades, onde escreve num computador adaptado. "Estou a terminar a 4.ª classe e quero continuar os estudos. Também tenho aulas de carpintaria, braile e informática na Associação Portuguesa de Deficientes Visuais", revelou.
"As aulas de reabilitação deram-me uma nova visão da vida. Agora consigo ver. Vejo à minha maneira. Já fui ver teatro de revista. E gostei", frisou.
"No outro dia pedi a um vizinho para me emprestar a bicicleta dele. E andei mesmo de bicicleta, sem chocar com nada e sem pôr os pés no chão. Ele nem queria acreditar no que estava a ver", relatou Carlos Manuel, cheio de orgulho.
http://dn.sapo.pt/2009/01/24/sociedade/aprender_a_uma_nova_vida.html
Processo de reabilitação só começa depois de "fazer o luto da doença"
Milagre. "Todos os cegos têm a secreta esperança de voltar a ver", diz a directora do centro de reabilitação
Quando ficam cegas, "as pessoas chegam aqui completamente perdidas, todas encolhidas, enroscadas, quase em posição fetal para se protegerem, porque têm medo de cair ou chocar contra as coisas", diz Conceição Luís, directora do Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos, em Santa Apolónia, Lisboa. "São pessoas que viam normalmente e, de repente, cegaram e ficaram perdidas", referiu ao DN.
"Trabalhamos imenso na recuperação da auto-estima. No primeiro mês e meio, a nossa função principal é tirar as pessoas do buraco em que se encontram", explicou, pois "entraram em depressão e ainda não aceitam o facto de terem cegado. Têm de fazer o luto. É preciso que a pessoa aceite que está cega".
"Não posso ensinar braile nem pôr a bengala na mão de uma pessoa que ainda não assumiu que está cega", esclarece a directora do centro, revelando que "todos têm a secreta esperança de que vão voltar a ver. Acreditam que a ciência vai evoluir e resolver o problema".
Salienta que "uma pessoa só está reabilitada quando está integrada. Por isso, tentamos colocar as pessoas em postos de trabalho, através dos serviços do Instituto do Emprego e Formação Profissional. Mas é muito difícil, porque os responsáveis das empresas ainda não estão muito receptivos. O objectivo é colocá-los na função que queriam desempenhar antes de ficarem cegos".
"Se não ficarem com uma actividade, eles voltam a fechar-se em casa e a isolar-se. A solução é um emprego ou outra formação, como, por exemplo, o programa Novas Oportunidades para os que não têm a escolaridade completa", declarou.
E dá um exemplo: "Tive aqui um jovem de 20 anos, com descolamento da retina, que tinha feito várias operações e chegou a uma altura em que já não havia solução. Cegou."
"Nas aulas participava e era expert em informática. Quando não estava nas aulas, ficava fechado no quarto. Perguntámos-lhe porque se isolava assim e ele respondeu: "Quando não estou nas aulas, durmo, porque enquanto durmo sonho e enquanto sonho eu vejo", contou.
"Está a tirar um curso de programação informática e é DJ numa discoteca", revelou Conceição Luís, considerando que, "se ele fosse embora daqui sem ter uma colocação noutra actividade, acabaria por se fechar em casa e ficar outra vez perdido".
Adianta que, "normalmente, eles dizem que após terem cegado ainda conseguem imaginar as coisas às cores. Mas depois passa a ser tudo a preto e branco".
Este centro, que pertence à Segurança Social, existe há 46 anos e tem capacidade para 22 internos, que vêm de fora de Lisboa e ali permanecem durante o processo de reabilitação. Tudo é gratuito, incluindo refeições e alojamento. Quem vive na capital frequenta as aulas em regime externo.
Os períodos de reabilitação "são normalmente de três meses para utentes com baixa visão e de cinco meses a um ano para casos de cegueira total", informou a directora.
Ali ensinam mobilidade de quatro níveis, como movimentarem-se no interior do centro, na zona envolvente, nos transportes públicos e na área de residência. No programa de actividades da vida diária, a equipa de reportagem do DN encontrou Maria Bárbara na cozinha a receber formação e a confeccionar um bolo de ananás. Residente em Vila Viçosa, vê abaixo dos 10%. "Desde os 17 anos que tenho baixa visão, mas há cinco anos, devido a uma depressão, o problema agravou-se muito", contou Bárbara, que trabalhava no Centro de Saúde de Vila Viçosa, mas desde há três anos está em casa.
"Os meus filhos já são crescidos e vão-me ajudando, mas não me sentia muito bem a cozinhar e às vezes atrapalhava-me, porque não conseguia ver as coisas. Por isso vim para aqui. Agora já consigo fazer quase tudo mais à vontade", relatou, com um sorriso de satisfação.
A directora do centro revela que também acompanham os utentes "ao teatro, ao cinema e a outros eventos para perceberem que podem continuar a ter vida social".
Foram ver o filme Ensaio sobre a Cegueira, na antestreia, com auscultadores que lhes transmitiam por voz o que passava nas legendas. Salienta que, "no final do filme, um cego recupera a visão. Ficaram com aquela mensagem de esperança que os cegos podem voltar a ver".
"Gostei muito do filme. Aquele retrato das pessoas que perdem a visão de repente é mesmo o estado em que elas nos chegam aqui ao centro: completamente perdidas", observou Conceição Luís.
DANIEL LAM
Fonte: http://dn.sapo.pt/2009/01/24/sociedade/processo_reabilitacao_comeca_depo...
sexta-feira, 29 de maio de 2009
REAÇÕES PSICOLÓGICAS À PERDA DA VISÃO
Introdução
Este trabalho teve início no Instituto Benjamin Constant (IBC) a partir do meu contato com pacientes cegos e com perda parcial da visão, onde tive a oportunidade de trabalhar como psicóloga por dois anos (1983/85).
O meu trabalho é direcionado para a prevenção da perda da visão, pois mesmo em casos reduzidos, o paciente tem grande participação “inconsciente” no retardo do diagnóstico e na dificuldade de reabilitação, contando ainda com vários outros fatores dentro do processo.
Apesar dos recursos com que se pode contar atualmente para evitar a perda da visão, a cada dia muitas pessoas ficam cegas por doença, acidente ou velhice. Para uma pessoa com visão normal, a perda repentina de seu mais precioso sentido é muito difícil. Principalmente se considerarmos que em nosso mundo cada vez mais orientado visualmente, ninguém conta com a possibilidade de ficar cego.
Do ponto de vista psicológico, mesmo o indivíduo mais saudável mentalmente utilizará mecanismos importantes para a sua adaptação à cegueira.
Embora a Psicanálise e a Psiquiatria estejam familiarizadas em lidar com perdas, raramente têm a oportunidade de observar passo a passo as reações e o funcionamento da catástrofe que sofre o paciente com a perda total da visão.
A necessidade de uma profunda reorganização psicológica destes pacientes requer um amparo urgente para que eles possam lidar com esta perda que influi em todos os aspectos de suas vidas.
Religião, mitologia e cegueira
Nos templos bíblicos, a cegueira era um mal comum. Esta condição era freqüentemente encarada como uma punição por algum ato maligno ou como um traço do destino, só podendo ser revertida por Deus. Nos tempos bíblicos, os cegos estavam forçosamente condenados a uma vida de dificuldades e pobreza.
Alguns exemplos bíblicos de cegueira auto-infligida são os casos de Santa Luzia, padroeira dos cegos e doentes dos olhos, e S. Triduana e S. Medana, padroeiros da oftalmologia.
Seguem-se casos históricos, como o relatado por Marco Pólo, no séc. XIII. Ao chegar em Bagdá, soube da história de um sapateiro que destruíra o olho direito com uma sovela, sentindo-se culpado pelos pensamentos pecaminosos que teve ao ver exposta uma parte da perna de uma jovem mulher.
No século passado, o conhecimento da mitologia grega era essencial para qualquer pessoa poder considerar-se educada.
A mitologia também considera a cegueira como punição aos pecados. Provavelmente, os primeiros casos de cegueira auto-infligida foram relatados nas mitologias grega e nórdica. A história de Édipo nos é bem conhecida. Na literatura nórdica, diz-se que Odin deu um de seus olhos em troca do direito de beber um único gole na fonte de Mimir, cujas águas continham o dom da sabedoria e do entendimento.
A bela lenda de Lady Godiva nos conta que todos os habitantes da cidade esconderam-se por trás de suas venezianas fechadas a fim de tornar mais fácil a tarefa da senhora de cavalgar nua pelas ruas em pleno dia. O único homem que espiou através das venezianas o seu belo corpo desnudo foi punido com a cegueira.
Embora alguns estigmas da cegueira mencionados acima sejam parte do passado, também na sociedade moderna as pessoas cegas são evitadas, ignoradas ou superprotegidas.
Reações à perda da visão
Segundo Adams (1980), um dos primeiros trabalhos da literatura psiquiátrica que falava sobre as reações à cegueira intitula-se “The Mental State of the Blind” (1908), de autoria de William Dunton, e foi publicado no American Journal of Insanity.
Adams mostra que Luiz Cholden também contribuiu com considerações sobre os problemas psiquiátricos observados em seu atendimento em reabilitação de cegos na Menninger Clinic. Segundo o autor, a primeira fase que aparece com o choque da cegueira é o estado de imobilidade psicológica, descrito como “proteção emocional anestésica”. Seria impossível colocar um limite de tempo nesta fase, mas ele sentiu que quanto mais longa fosse a fase do choque, mais prolongado e difícil seria o processo de reabilitação.
Seguindo-se à fase do choque, surge a depressão reativa envolvendo sentimentos e desejos de autopiedade, necessidade de confidências, pensamentos suicidas e retardamento psicomotor.
Para Cholden, a depressão seria o luto pelos “dead eyes”, pela perda de visão. Percebeu que o paciente tinha que morrer como pessoa que enxerga para renascer como pessoa cega.
Observou que o choque e a depressão são necessários à progressão, para se lidar melhor com a cegueira no próximo estágio.
Observou três reações “permanentes” na cegueira, que ele considera como representantes psicopatológicos. A primeira era o prolongamento da fase depressiva para a depressão masoquista. A segunda, o desenvolvimento das desordens características, que poderia ser um exagero de fatos preexistentes, como por exemplo, uma dependência crônica. E por último, descreveu um fenômeno no qual alguns pacientes cegos formavam um grupo representando uma minoria contra aquilo que eles consideravam “um mundo hostil, estúpido e sem consideração, das pessoas com visão normal”.
Ainda segundo Adams, em 1970 Fitzgerald estudou as reações à cegueira de forma moderna, sistemática e científica e descreve quatro fases distintas de reações. Primeiro a descrença, quando os pacientes tendem a negar sua cegueira. Depois, a fase de protesto, quando eles vão procurar uma segunda opinião ou recusam-se a usar a bengala branca. Em terceiro lugar ocorre a depressão, com os sintomas clássicos de perda de peso, mudança de apetite, idéias suicidas e ansiedades paranóides. E por fim acontece a recuperação, quando os pacientes aceitam a cegueira num estágio em que não se percebe qualquer distúrbio psiquiátrico. Fitzgerald estimava um período de dez meses para que o paciente percorresse essas quatro etapas.
O processo de luto é visto como uma fase importante que muitas vezes nem se realiza. Nesses casos, o paciente assume o caráter de uma negação maníaca, ocasionando reações neuróticas moderadas ou severas.
As características mais freqüentemente observadas nestas reações são:
dependência acentuada em relação aos adultos ou negação da mesma;
recusa à competição ou constante preocupação em comparar-se e competir;
repressão da agressividade com excessiva amabilidade ou grande agressividade;
hipersensibilidade a críticas;
dificuldade de relacionamento com outros deficientes visuais e entre eles os “videntes”;
insegurança a respeito de si mesmo;
desconfiança acentuada em relação a outras pessoas e suas intenções;
manifestações de ressentimentos pela sensação de não ser querido e aceito pelo mundo, pois julga que ser diferente é ser inferior;
predominância de pensamento mágico e misticismo;
sentimentos de inveja;
descontentamento e uma crítica severa em relação aos demais;
desconfiança acentuada sobre sua capacidade sexual (cegueira = castração);
busca de um parceiro que também seja deficiente visual;
isolamento, evitando situações sociais;
acentuada necessidade de aprovação e afeto.
No trabalho com pacientes com perda da visão é observado um predomínio de traços paranóides que não devem ser avaliados somente como fantasia, pois existe um rechaço real da sociedade em relação ao deficiente visual.
Nos autores pesquisados, há concordância quanto às quatro fases que acontecem quase universalmente nos primeiros estágios da cegueira.
Segundo Fitzgerald são elas: descrença, protesto, depressão e finalmente recuperação. Blank e Cholden descrevem uma fase inicial de despersonalização, elevando a uma depressão reativa ou agitada, eventualmente seguida da recuperação. Blank afirma ainda que o paciente fica um pouco perturbado com a perda de visão como mau sinal, e sugere como conseqüência uma grave necessidade neurótica de punição.
O sofrimento é a reação real à perda de um objeto, enquanto a angústia é a reação ao perigo que essa perda acarreta.
Quando existe a dor física, ocorre em elevado grau aquilo que poderia ser definido como investimento narcísico do local. A transição da dor física para a dor mental corresponde a uma mudança do investimento narcísico para o investimento do objeto. O luto ocorre sob a influência do teste da realidade, pois esta última função exige categoricamente que o paciente se separe do objeto que não mais existe.
Outras perdas somam-se à perda da visão:
Perda da integridade física (o indivíduo sente-se mutilado, está diferente do que era anteriormente e diferente dos que o cercam);
Perda dos sentidos remanescentes (há uma desorientação inicial, causando diminuição do tato, olfato, memória, capacidade motora etc.);
Perda do contato real com o meio ambiente (como se morresse para o mundo das coisas, perdendo assim um importante vínculo com a realidade);
Perda do “campo visual” (olha para algo que não se encontra mais ali – silêncio visual);
Perda das habilidades básicas (capacidade de andar; estando só é observado, e estando com outras pessoas sente-se isolado);
Perda das técnicas da vida diária (passa por repetidos fracassos nessas atividades que nunca o deixam esquecer que está cego. Ex: comer, beber, funções intestinais, conservar-se limpo e arrumado, despir-se à noite e vestir-se pela manhã, barbear-se, maquiar-se, higiene pessoal, distinguir a pasta de dente do creme de barbear, controlar as contas, preencher cheques, contar dinheiro, localizar objetos que derrubava, comer em restaurante etc.) Tais perdas obrigam o deficiente visual a depender, em maior grau, das outras pessoas, restringindo severamente sua autonomia;
Perda da facilidade de comunicação escrita (livros, jornais, fotografias, não pode ler a própria correspondência, perdendo a reserva pessoal, e impossibilitado também de assinar o próprio nome);
Perda da facilidade da comunicação corporal (postura, gestos, mímica e expressões faciais, não pode ver as reações da pessoa com quem fala);
Perda da visão dos rostos familiares, artes etc;
Restrições em sua recreação (que poderia ajudá-lo na superação da crise);
Perda da obscuridade (não passa mais despercebido na sua rua, por isso muitas vezes rejeita a bengala e qualquer objeto que possa identificá-lo como cego);
Perda da profissão (perde a capacidade de produzir e de sentir-se útil). Perdendo muitas vezes sua segurança financeira, numa fase em que necessita gastar mais com sua reabilitação;
Sendo inúmeras as limitações, uma série de frustrações acompanha uma desorganização na personalidade e na perda da auto-estima.
Mudança do setting
O trabalho com o paciente cego em um relacionamento psicoterapêutico exige que o terapeuta se conscientize de algumas interações especiais, que podem surgir durante o processo, incluindo questões de transferência e contra-transferência. Antes do início da terapia, deve o psicoterapeuta tentar examinar o seu próprio setting quanto ao que ele acredita ser a sua própria atitude diante da cegueira, o que a cegueira significaria para ele, e – especialmente – que experiências ele teve com cegos no passado.
Para Adams (1980), desde o início deve o terapeuta estar disposto a assumir um papel mais ativo. No primeiro contato, na sala de espera, o terapeuta deve anunciar a sua presença em voz alta, e deve estar pronto para tocar o paciente e permitir que este o toque, deixando que ele segure em seu braço com firmeza até ambos estarem sentados no consultório. O terapeuta deve saber que comportamentos como gesticular, ou expressão facial podem estar ausentes ou destorcidos no paciente cego. Ainda: algumas das pistas visuais normalmente utilizadas em terapia podem ter que ser sacrificadas. O terapeuta não pode esperar que o paciente cego reaja a um olhar. Portanto, ele deve aprender a traduzir em palavras estas emoções visuais. O paciente cego pode ter dificuldades com “contato visual” e aparentar não estar vinculado ao terapeuta (quando, na realidade, ele está claramente em harmonia com a sessão). Por outro lado, alguns pacientes mantêm um contato visual tão bom, que o terapeuta pode esquecer que o paciente não possui visão.
Uma parte necessária para a terapia com pessoas cegas é a disposição de se explicar detalhadamente o ambiente. Pode ser, porém, que o terapeuta queira primeiro explorar a fantasia que o paciente tem a respeito do mesmo.
O terapeuta deve lembrar-se que a sua própria curiosidade pode levá-lo a seguir um detalhe que seja de seu interesse, em vez de ser o foco da terapia. (Por exemplo, o paciente deprimido pode descrever como lhe é difícil vestir-se de manhã. O terapeuta pode interessar-se por outros aspectos, e não pela falta de energia ou interesse do paciente). Estas distrações podem ser informativas, mas também prolongam o curso da terapia. De um modo geral, o terapeuta demorar a estabelecer um relacionamento terapêutico com o paciente cego, demora que pode ser reduzida mediante conhecimentos prévios sobre o comportamento dos cegos.
A importância da psicoterapia com estes pacientes torna-se ainda maior se pensarmos no tratamento que a sociedade dava aos cegos no passado. O conhecimento de algumas reações psicológicas, bem como do processo de aceitação da cegueira, é fundamental para que se estabeleça uma relação de sintomas específicos associados ao problema.
O trabalho psicoterapêutico com o deficiente visual pode ser acelerado se o terapeuta estiver disposto a explorar suas próprias reações diante do paciente. Assim estabelecem-se os alicerces para um processo psicoterapêutico ativo que podem facilitar e aprofundar o tratamento.
Apesar da psicoterapia ter que focalizar principalmente os problemas psicológicos do paciente, o psicoterapeuta também deve estar disposto a auxiliá-lo a encontrar um papel mais satisfatório na sociedade, estando atento a habilidades e interesses mencionados pelo paciente antes da perda de visão.
Interação analista x paciente
Conduta no tratamento
A psicanálise em geral acha-se pouco preparada para encarar terapeuticamente soluções de emergência. Alguns profissionais preferem chamá-las de “Psicoterapia de Apoio”. No momento de crise, quando o paciente é levado pela família – pois dificilmente procura espontaneamente o consultório – é inútil para ele outra atitude que não seja encarar o fato atual como o mais importante. Alguma conduta imediata tem que ser adotada.
O estado atual é reflexo de acontecimentos penosos vividos ou fantasiados na infância e que devem ser localizados pelo analista. A fase aguda do momento estaria relacionada a um fato atual, um fator desencadeante de grande intensidade ou a somatização de microtraumas constantes.
Sob o ponto de vista das “instâncias psíquicas” nos encontramos em uma situação em que o id frustrado por um superego rígido, punitivo e ameaçador, pressiona um ego fraco ou enfraquecido cheio de culpabilidade e masoquismo que poderá reagir pondo a agressividade para fora contra o outro ou contra si mesmo até a destruição do self.
Em situações comuns, as “falas” dessas instâncias podem ser encontradas nas emergências, apresentando as tempestades de afetos, com o paciente gritando e amedrontando ao mesmo tempo em que se apresenta como vítima. Ou então o paciente fala ponderadamente, apresentando-se como frio e vazio de afeto, pois está isolado.
A reação do paciente à urgência é imprevisível, e as repressões muito profundas indicam risco de suicídio.
O psicanalista está acostumado a interpretar, mostrar, compreender, etc. Mas no momento da crise, o que pode ser interpretado? O “como”, o “porquê”, o “para quê” ou o “o quê?” Mostrar compreensão sem compreender? Ser dadivoso?
Na verdade há pouco a ser feito, mas também não podemos ficar sem fazer nada. Podemos tentar alguma coisa. Uma delas seria entrar em contato com algum resíduo de Ego sadio mostrando que há finalidade naquela conduta.
Outra possibilidade seria procurar descobrir a situação desencadeante ou frustradora – ou ambas combinadas – e procurar substituir o superego perseguidor por um menos rígido, assumindo conscientemente o papel de um superego auxiliar, mais compreensivo e menos perseguidor.
Dados que devem ser vistos como importantes:
a) É mais fácil entrar em relacionamento com o cliente que pede ajuda espontaneamente;
b) o setting hospitalar pode ser favorecedor.
Já o atendimento em residência ou o fornecimento de dados pela família são fatores muito negativos. Se o cliente não quer falar, ele tem alguma razão para isto, e é melhor que ele não fale do que ouvirmos o que a família tem a dizer sobre ele. Pois o doente pode ser depositório dos aspectos doentes da família que o mantém cronicamente doente.
Há também o sentimento de culpa deslocado e a família pode receber o analista com hostilidade, acusando-o de não ter feito nada.
Basicamente, a intuição é o elemento fundamental da ajuda que o terapeuta pode oferecer na emergência.
Teoricamente :
1. Abrir sua sensibilidade, intuição, identificar-se com o cliente, e se tornar um corpo de ressonância para o inconsciente dele.
2. Usar a inteligência para entender conscientemente o que o inconsciente sentiu; sentir o que liga e o que separa; analisar e sintetizar; diferenciar o essencial do secundário; e tentar compreender e sentir a pessoa dentro da doença.
O terapeuta deve oscilar entre o esquecer e lembrar, a reação intuitiva e o discriminar intelectual, ser um instrumento passivo/ativo sensível e ao mesmo tempo um ouvinte crítico e racional.
Estas condições não podem ser ensinadas. Elas são inerentes a certos tipos de pessoas, e ainda assim, podem não funcionar em determinados momentos.
A personalidade do psicanalista, junto com o conhecimento que ele adquiriu em sua formação, aumenta sua possibilidade de empatia e identificação com o cliente.
Existe emergência e o bom manejo dela depende principalmente de uma capacidade especial do terapeuta que intui a gravidade da situação, tendo apenas como conhecimento que, via de regra, o elemento predominante da emergência é o ódio, a destruição e a vingança.
No início do tratamento, as interpretações são irrelevantes ou podem até mesmo se transformar num insulto. Talvez mais importante do que o conteúdo, em todo caso, sejam os processos dinâmicos que ocorreram tanto em níveis conscientes quanto inconscientes.
Freud, em Psicanálise Silvestre, fala da idéia de que o paciente sofre de uma espécie de ignorância, e que se alguém consegue tirá-lo desse estado dando-lhe informação (sobre a conexão causal da doença com a sua vida etc.) ele deve recuperar-se. O fator patológico não é esse ignorar propriamente, mas está no fundamento dessa ignorância, em suas resistências internas; foram elas que primeiro produziram o ignorar, e são elas que ainda o conservam. A tarefa do tratamento está no combate a essas resistências.
Informar ao paciente aquilo que ele não sabe porque reprimiu é apenas uma das preliminares necessárias ao tratamento. Se o conhecimento acerca do inconsciente fosse tão importante para o paciente como as pessoas sem experiência em psicanálise imaginam, ouvir conferências ou ler livros seria suficiente para curá-los.
Uma vez que a psicanálise não pode abster-se de dar essa informação, Freud prescreve que isto não poderá ser feito antes que duas condições tenham sido satisfeitas: “Primeiro, o paciente deve, através de preparação, ter alcançado ele próprio a proximidade daquilo que ele reprimiu; e, segundo, ele deve ter formado uma ligação (transferência) com o analista para que o seu relacionamento emocional com este possibilite uma nova fuga.
Somente quando essas condições são satisfeitas torna-se possível reconhecer e dominar as resistências que conduziram à repressão e à ignorância. A intervenção psicanalítica, portanto, requer de maneira absoluta um período bastante longo de contato com o paciente.
Destaca também o valor da ignorância, ainda que não sejamos ignorantes. Uma “ignorância cultivada” é a necessidade de se lançar um olhar novo para a situação, de se deixarem de lado modos habituais de olhar para as coisas, de cegar-se para o óbvio e de pensar mais uma vez.
É importante convidar o paciente a falar livremente de seu sentimento, de seu sofrimento, enfim, convidá-lo à associação livre.
A importância de um apoio central, a família, a presença de alguém que possa dar força e suporte para continuar o processo de desenvolvimento na ajuda não das mudanças sonhadas, desejadas, mas possíveis.
Uma atenção cuidadosa à contra-transferência também é necessária.
Nosso envolvimento pode tornar mais difícil a observação cuidadosa. A supervisão pode ser muito útil na ajuda de interferências no relacionamento.
Estudo de caso
De um modo geral, em psicanálise, só recebemos encaminhamento para tratar de pessoas que de alguma forma não conseguiram se adaptar às tensões em suas vidas. Não pretendo apresentar estudo detalhado de casos, mas uma interação entre a teoria e a observação de dois casos bem distintos.
Diferentemente dos casos que estudei, onde o acompanhamento psicológico ocorre simultaneamente ao clínico (como medida preventiva), recebi os pacientes encaminhados pelo Instituto Benjamin Constant (IBC) somente após terem sido esgotadas outras alternativas de ajuda.
Como medida de proteção aos pacientes, pouparei dados pessoais que poderiam identificá-los.
CASO 1
Tratamento: três anos. Beatriz, 59 anos, desquitada, vivendo com companheiro há vários anos, foi encaminhada ao IBC para aprendizado de trabalhos manuais. Só depois de várias faltas às consultas marcadas, convidei-a ao consultório. Então ela pôde comparecer, deixando clara a rejeição ao contato com outros deficientes visuais.
Durante a fase inicial do tratamento, confesso que passei por conflitos, questionando o que eu teria para oferecer àquela paciente que se encontrava em estado de desamparo, desesperança e depressão, com todas as perdas por que passam os pacientes que se tornaram cegos.
Penso que o fundamental para mim foi perceber que ela estava no consultório, falando, escutando e pensando; logo, havia socorro para ela.
A cada frase Beatriz chorava, tossia, se engasgava, sufocava. Eu me via diante de um bebê.
A primeira providência foi a mudança de setting e de horário. Coloquei-a num horário em que me sentisse mais livre se precisasse ultrapassar o tempo da sessão.
Um copo de água mineral fez parte do setting durante aproximadamente dois meses, até que minha colega de consultório observou que a paciente não bebia mais a água.
Aos poucos fui localizando-a no setting, e ela movimentava-se na sala de espera, no banheiro, e ia buscar água. Mas para entrar na minha sala ela apoiava-se em meu braço, alegando que “a passagem tinha muitas portas que ela não sabia abrir sozinha e tinha medo de se machucar”.
A esta altura, o tratamento começou a funcionar, pois a paciente já se encontrava em nível superior de auto-afirmação de suas atividades diárias. A depressão estava controlada com medicação, o que se recusara a usar até então, e também podia se alimentar sozinha.
Durante a depressão, Beatriz passava os dias na cama “embaixo do cobertor”, completamente isolada. Percebi que a depressão estava não só ligada à perda de visão somada a outras perdas, mas também servia para conter a cólera no estreito foco da dificuldade conjugal. Havia o desejo de manter o atual “marido” aposentado como seu enfermeiro, pois dessa forma estaria punindo-o e controlando-o ao mesmo tempo. Sua relação com o marido diferenciava-se das demais (filho, nora, netos) por uma gratificação masoquista. Beatriz estava convencida de que a relação com o marido estaria garantida se continuasse no comando, mesmo “embaixo do cobertor”.
Ao entrar em contato com as perdas, enfrentando o que poderia e o que não poderia ser modificado, passou a funcionar num nível de escolha até então desconhecido. Já podia escolher o caminho para o consultório, quando antes achava que não fazia diferença vir pelo túnel ou pela praia já que “não enxergava nada mesmo”. Também começou a freqüentar o supermercado com uma auxiliar e a escolher a marca dos produtos que queria usar.
Foram muitos momentos difíceis, pois a paciente vivia a esperança de voltar a enxergar. Sem mais possibilidades no Brasil, surge uma esperança nos Estados Unidos. Confesso que nesse momento entrei em estado de mania com a paciente, pois era muito agradável sonhar.
A paciente voltou de viagem sem enxergar. O transplante foi mantido, pois até então havia sempre rejeição, mas o nervo ótico estava completamente lesado.
A tarefa era ajudar no insight, auxiliando a paciente a livrar-se de métodos inúteis de conduta, facilitando a evolução de idéias no sentido de mudança e ajudando-a a suportar a ansiedade e a incerteza do processo de mudanças, não das sonhadas e desejadas, e sim das possíveis.
Sua capacidade de reconhecer um sentido na vida, considerando as atuais limitações, veio através dos netos.
As perdas não foram preenchidas, e a depressão não podia ter desaparecido. Mas acredito que ela tenha encontrado uma forma de “conviver” com elas.Neste caso, “trabalhos manuais” são importantes para quem se interessou por eles em algum momento, mas não teve a oportunidade de realizá-los. Não deve ser uma tarefa imposta, algo que tenha sobrado ao paciente. Hoje, no IBC, há várias opções oferecidas, de informática a marcenaria, mas a escolha é respeitada.
Muitos foram os momentos difíceis que enfrentei, onde ficava clara a angústia. Eu a identificava, mas a interpretação seria de pouco ganho.
São inúmeras as situações de regressão às quais os pacientes graves chegam, onde o analista tem que ter criatividade, pois não cabe, na hora, interpretação. Acredito que o meu trabalho com crianças portadoras de necessidades especiais muito me ajudou nestas situações.
A situação edípica da paciente era bastante comprometida. Expressava um ódio mortal pela mãe, pois dizia que esta só foi mulher para o pai, nunca se importou com os filhos, e acreditava que ela não queria filha mulher. O pai, apesar de ter sua admiração na infância, era sentido por ela como fraco.
Beatriz acabou sofrendo sucessivas cirurgias durante períodos que se prolongaram até 20 meses, sem resultados satisfatórios.
Bem mais tarde esta paciente me foi encaminhada, para desenvolver trabalhos manuais no Instituto Benjamim Constant. Diminuindo as defesas, ela toma conhecimento de quanto contribuiu para o agravamento da doença, e quão pouco cooperou com o tratamento e a equipe médica:
1. Continuou usando as lentes.
2. Misturava ou esquecia a medicação por estar muito ocupada, trabalhando.
3. Não voltou ao médico na data marcada, e fazia peregrinação para confirmar diagnóstico e medicação.
(Este foi o único ponto de igualdade com o caso que apresentarei a seguir, obviamente com diagnóstico diferente.)
Em 1978, a paciente havia sofrido cirurgia para retirada dos ovários (seu primeiro órgão de choque), chegando a fazer quimioterapia. Alegou ter resistido muito bem, pois o câncer não a impediu de trabalhar, e a sua presença era disfarçada. A perda da visão, por outro lado, lhe era impeditiva, imobilizando-a em vários aspectos conforme descrito anteriormente (ver “Reações à perda de visão”).
A paciente segue seu caminho com ajuda, um nível razoável de independência, os ganhos obtidos em relação ao comportamento inicial ao tratamento foram muitos, não resolvendo a perda de visão, mas uma melhor forma para visualizar soluções de seus problemas na reabilitação.
CASO 2
Tratamento: aproximadamente seis meses. Fernando, 43 anos, casado, chegou ao consultório também, acompanhado da esposa, porém com boa mobilidade e perfeito domínio da bengala. Ele já tinha passado pelo IBC e veio encaminhado por profissional da Instituição.
O paciente perdeu a visão num desastre de automóvel em que dirigia completamente alcoolizado, já tendo sofrido outros acidentes pelo mesmo motivo. Tinha consciência de seu alcoolismo e freqüentava o AA, contando com a participação da família nas reuniões.
Longe da depressão e da perda, encontrava-se em quadro que considero “maníaco”, juntamente com todos os que se propuseram a ajudá-lo, pois havia uma total negação por parte do paciente e da família.
A ajuda que recebia da família era comovente em muitas situações, mas em outras era desastrosa, pois o mantinha em grande dependência.
O paciente tinha boa situação financeira, prestígio e era responsável pelo sustento da família, mas após o acidente de carro foi despedido pela empresa. A esposa, que não trabalhava fora, passou a ter o controle das despesas, e o paciente assumiu a função “materna” com os filhos.
As oportunidades de trabalho eram de pouca eficácia e o colocavam sempre em situações que o expunham.
Fernando não falava de suas perdas, limitando as sessões ao desejo de vencer a barreira financeira. Entendia a dificuldade que sentia na perda do seu papel de provedor ativo para passivo, e a competição com a esposa. No nosso contrato combinamos que não o receberia alcoolizado, pois ele pouco poderia aproveitar do tratamento. Respeitava, em tese, mas quando bebia usava a secretária eletrônica ou telefonava para a minha casa em horários impróprios.
Eu nunca soube detalhes do acidente, pois ele começava a contar várias vezes, mas mudava de assunto. Tentei mostrar que a situação deveria ter sido muito difícil, pois parecia que ele tinha medo de falar, como se fosse vivê-la novamente.
O paciente ficou pouco tempo e não senti nenhuma mudança. Interrompeu o tratamento alegando que as filhas e a mulher estavam precisando de tratamento dentário, que ortodontia era muito caro mas que elas precisavam da correção.
Tentei mostrar que ele acreditava que para as filhas havia correção, mas era como se ele imaginasse que eu não poderia fazer mais nada para melhorar o seu estado. A esposa também veio falar sobre o pagamento, não podendo experimentar uma nova visão da vida, pois havia uma dificuldade maior dele se tratar. Embora para esses casos eu tenha uma disposição para o pagamento simbólico.
Nos dois casos apresentados, acredito que se esses pacientes tivessem sido encaminhados para tratamento psicológico, quando o quadro clínico começou a complicar, talvez pudessem ter se conscientizado de uma maior cooperação no diagnóstico e no tratamento.
Assim como Beatriz, Fernando não perdeu a visão de imediato; havia um quadro de tratamento. Imagino que estas perdas devem acontecer não só com a visão, mas com outros órgãos, com grande participação do paciente. Sempre existe uma outra ocorrência grave como pano de fundo, onde a doença sempre traz um ganho, ainda que secundário.
Fatores importantes para a reabilitação
Os autores pesquisados falam que uma boa reabilitação do paciente e que a ausência de maiores distúrbios afetivos podem ser atribuídos ao cuidado recebido no início da ocorrência e no hospital, ao apoio da família, à sua personalidade saudável e, principalmente, à sua visão otimista da vida.
Pacientes abertos a mudanças e envolvimentos e que encaram a mudança como um desafio e não como uma ameaça também apresentam boa recuperação.
Há pessoa ajustada, adaptada a “verdade” segundo as necessidades da situação, enquanto que o desajustado mantém-se no “erro” inicial mesmo quando este já não lhe oferece nenhum ganho.
A capacidade de reconhecer um sentido na vida considerando as atuais limitações ajuda na reabilitação a obter uma satisfação interna que é impossível diante de um questionamento intelectual.
A reabilitação dependerá de vários fatores:
da estrutura do ego;
do nível de frustração que o paciente é capaz de suportar;
da quantidade de limitações que a cegueira lhe impõe (ex. grau de necessidade de visão em sua vida profissional);
da reação do grupo familiar;
do tipo predominante de caráter: marcado pela dependência ou sado-masoquista, que se satisfaz com a cegueira;
das realizações do paciente em sua vida até o momento da perda;
da sua estabilidade emocional;
das responsabilidades antes da perda de visão;
da faixa etária do paciente.
Pontos negativos para a reabilitação:- Sabe-se que a falsa esperança não só atrasa como impede a reabilitação. A ajuda da família com relacionamento “excessivo” e “desmedido” provoca um comportamento regressivo, permanecendo a dependência do paciente.
Conclusão
Embora a psicanálise esteja hoje bem difundida na mídia e no âmbito cultural, encontra-se ainda muito isolada e distante do trabalho da equipe médica.Este trabalho reflete minha convicção de que muito pode ser feito na área oftalmológica, e o meu desejo por uma psicanálise dinâmica, aplicada, que se aventure ou que volte (como o fez Freud em 1885, quando ao pesquisar perturbações histéricas da visão, estagiou durante três meses em oftalmologia em Viena) para a área institucional numa atuação multidisciplinar. São vários os níveis em que a psicanálise pode atuar: preventivo, terapêutico, de reabilitação e profissionalizante, sempre auxiliando o indivíduo e a instituição a funcionarem melhor.
Não pretendo esgotar o tema, pois estou apenas iniciando o estudo e pretendo continuar refletindo, já que sinto que ele é muito rico e não se aplica apenas a pacientes com perda de visão.
Concluo o trabalho consciente da minha “cegueira” para muitos aspectos desconhecidos da teoria e da prática. Espero, no entanto, continuar com o desejo e a curiosidade para sempre considerar um ângulo novo nas coisas que não conheço, aprofundar minha intuição em busca da compreensão e fugir da tentação e do perigo de aprender a ver, ficando assim impossibilitada de ver o novo.
Maria Cristina de Castro Barczinski - Membro associado da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro e trabalha como psicóloga voluntária no Instituto Benjamin Constant.Fim da Página Site Desenvolvido pela Acessibilidade Brasil 2005 | www.acessobrasil.org.brAtalhos de Navegação Início da Página (alt+i)Busca no Site (alt+b)Onde Estou? (alt+o)Menu Principal (alt+m)Conteúdo do Site (alt+c)
Este trabalho teve início no Instituto Benjamin Constant (IBC) a partir do meu contato com pacientes cegos e com perda parcial da visão, onde tive a oportunidade de trabalhar como psicóloga por dois anos (1983/85).
O meu trabalho é direcionado para a prevenção da perda da visão, pois mesmo em casos reduzidos, o paciente tem grande participação “inconsciente” no retardo do diagnóstico e na dificuldade de reabilitação, contando ainda com vários outros fatores dentro do processo.
Apesar dos recursos com que se pode contar atualmente para evitar a perda da visão, a cada dia muitas pessoas ficam cegas por doença, acidente ou velhice. Para uma pessoa com visão normal, a perda repentina de seu mais precioso sentido é muito difícil. Principalmente se considerarmos que em nosso mundo cada vez mais orientado visualmente, ninguém conta com a possibilidade de ficar cego.
Do ponto de vista psicológico, mesmo o indivíduo mais saudável mentalmente utilizará mecanismos importantes para a sua adaptação à cegueira.
Embora a Psicanálise e a Psiquiatria estejam familiarizadas em lidar com perdas, raramente têm a oportunidade de observar passo a passo as reações e o funcionamento da catástrofe que sofre o paciente com a perda total da visão.
A necessidade de uma profunda reorganização psicológica destes pacientes requer um amparo urgente para que eles possam lidar com esta perda que influi em todos os aspectos de suas vidas.
Religião, mitologia e cegueira
Nos templos bíblicos, a cegueira era um mal comum. Esta condição era freqüentemente encarada como uma punição por algum ato maligno ou como um traço do destino, só podendo ser revertida por Deus. Nos tempos bíblicos, os cegos estavam forçosamente condenados a uma vida de dificuldades e pobreza.
Alguns exemplos bíblicos de cegueira auto-infligida são os casos de Santa Luzia, padroeira dos cegos e doentes dos olhos, e S. Triduana e S. Medana, padroeiros da oftalmologia.
Seguem-se casos históricos, como o relatado por Marco Pólo, no séc. XIII. Ao chegar em Bagdá, soube da história de um sapateiro que destruíra o olho direito com uma sovela, sentindo-se culpado pelos pensamentos pecaminosos que teve ao ver exposta uma parte da perna de uma jovem mulher.
No século passado, o conhecimento da mitologia grega era essencial para qualquer pessoa poder considerar-se educada.
A mitologia também considera a cegueira como punição aos pecados. Provavelmente, os primeiros casos de cegueira auto-infligida foram relatados nas mitologias grega e nórdica. A história de Édipo nos é bem conhecida. Na literatura nórdica, diz-se que Odin deu um de seus olhos em troca do direito de beber um único gole na fonte de Mimir, cujas águas continham o dom da sabedoria e do entendimento.
A bela lenda de Lady Godiva nos conta que todos os habitantes da cidade esconderam-se por trás de suas venezianas fechadas a fim de tornar mais fácil a tarefa da senhora de cavalgar nua pelas ruas em pleno dia. O único homem que espiou através das venezianas o seu belo corpo desnudo foi punido com a cegueira.
Embora alguns estigmas da cegueira mencionados acima sejam parte do passado, também na sociedade moderna as pessoas cegas são evitadas, ignoradas ou superprotegidas.
Reações à perda da visão
Segundo Adams (1980), um dos primeiros trabalhos da literatura psiquiátrica que falava sobre as reações à cegueira intitula-se “The Mental State of the Blind” (1908), de autoria de William Dunton, e foi publicado no American Journal of Insanity.
Adams mostra que Luiz Cholden também contribuiu com considerações sobre os problemas psiquiátricos observados em seu atendimento em reabilitação de cegos na Menninger Clinic. Segundo o autor, a primeira fase que aparece com o choque da cegueira é o estado de imobilidade psicológica, descrito como “proteção emocional anestésica”. Seria impossível colocar um limite de tempo nesta fase, mas ele sentiu que quanto mais longa fosse a fase do choque, mais prolongado e difícil seria o processo de reabilitação.
Seguindo-se à fase do choque, surge a depressão reativa envolvendo sentimentos e desejos de autopiedade, necessidade de confidências, pensamentos suicidas e retardamento psicomotor.
Para Cholden, a depressão seria o luto pelos “dead eyes”, pela perda de visão. Percebeu que o paciente tinha que morrer como pessoa que enxerga para renascer como pessoa cega.
Observou que o choque e a depressão são necessários à progressão, para se lidar melhor com a cegueira no próximo estágio.
Observou três reações “permanentes” na cegueira, que ele considera como representantes psicopatológicos. A primeira era o prolongamento da fase depressiva para a depressão masoquista. A segunda, o desenvolvimento das desordens características, que poderia ser um exagero de fatos preexistentes, como por exemplo, uma dependência crônica. E por último, descreveu um fenômeno no qual alguns pacientes cegos formavam um grupo representando uma minoria contra aquilo que eles consideravam “um mundo hostil, estúpido e sem consideração, das pessoas com visão normal”.
Ainda segundo Adams, em 1970 Fitzgerald estudou as reações à cegueira de forma moderna, sistemática e científica e descreve quatro fases distintas de reações. Primeiro a descrença, quando os pacientes tendem a negar sua cegueira. Depois, a fase de protesto, quando eles vão procurar uma segunda opinião ou recusam-se a usar a bengala branca. Em terceiro lugar ocorre a depressão, com os sintomas clássicos de perda de peso, mudança de apetite, idéias suicidas e ansiedades paranóides. E por fim acontece a recuperação, quando os pacientes aceitam a cegueira num estágio em que não se percebe qualquer distúrbio psiquiátrico. Fitzgerald estimava um período de dez meses para que o paciente percorresse essas quatro etapas.
O processo de luto é visto como uma fase importante que muitas vezes nem se realiza. Nesses casos, o paciente assume o caráter de uma negação maníaca, ocasionando reações neuróticas moderadas ou severas.
As características mais freqüentemente observadas nestas reações são:
dependência acentuada em relação aos adultos ou negação da mesma;
recusa à competição ou constante preocupação em comparar-se e competir;
repressão da agressividade com excessiva amabilidade ou grande agressividade;
hipersensibilidade a críticas;
dificuldade de relacionamento com outros deficientes visuais e entre eles os “videntes”;
insegurança a respeito de si mesmo;
desconfiança acentuada em relação a outras pessoas e suas intenções;
manifestações de ressentimentos pela sensação de não ser querido e aceito pelo mundo, pois julga que ser diferente é ser inferior;
predominância de pensamento mágico e misticismo;
sentimentos de inveja;
descontentamento e uma crítica severa em relação aos demais;
desconfiança acentuada sobre sua capacidade sexual (cegueira = castração);
busca de um parceiro que também seja deficiente visual;
isolamento, evitando situações sociais;
acentuada necessidade de aprovação e afeto.
No trabalho com pacientes com perda da visão é observado um predomínio de traços paranóides que não devem ser avaliados somente como fantasia, pois existe um rechaço real da sociedade em relação ao deficiente visual.
Nos autores pesquisados, há concordância quanto às quatro fases que acontecem quase universalmente nos primeiros estágios da cegueira.
Segundo Fitzgerald são elas: descrença, protesto, depressão e finalmente recuperação. Blank e Cholden descrevem uma fase inicial de despersonalização, elevando a uma depressão reativa ou agitada, eventualmente seguida da recuperação. Blank afirma ainda que o paciente fica um pouco perturbado com a perda de visão como mau sinal, e sugere como conseqüência uma grave necessidade neurótica de punição.
O sofrimento é a reação real à perda de um objeto, enquanto a angústia é a reação ao perigo que essa perda acarreta.
Quando existe a dor física, ocorre em elevado grau aquilo que poderia ser definido como investimento narcísico do local. A transição da dor física para a dor mental corresponde a uma mudança do investimento narcísico para o investimento do objeto. O luto ocorre sob a influência do teste da realidade, pois esta última função exige categoricamente que o paciente se separe do objeto que não mais existe.
Outras perdas somam-se à perda da visão:
Perda da integridade física (o indivíduo sente-se mutilado, está diferente do que era anteriormente e diferente dos que o cercam);
Perda dos sentidos remanescentes (há uma desorientação inicial, causando diminuição do tato, olfato, memória, capacidade motora etc.);
Perda do contato real com o meio ambiente (como se morresse para o mundo das coisas, perdendo assim um importante vínculo com a realidade);
Perda do “campo visual” (olha para algo que não se encontra mais ali – silêncio visual);
Perda das habilidades básicas (capacidade de andar; estando só é observado, e estando com outras pessoas sente-se isolado);
Perda das técnicas da vida diária (passa por repetidos fracassos nessas atividades que nunca o deixam esquecer que está cego. Ex: comer, beber, funções intestinais, conservar-se limpo e arrumado, despir-se à noite e vestir-se pela manhã, barbear-se, maquiar-se, higiene pessoal, distinguir a pasta de dente do creme de barbear, controlar as contas, preencher cheques, contar dinheiro, localizar objetos que derrubava, comer em restaurante etc.) Tais perdas obrigam o deficiente visual a depender, em maior grau, das outras pessoas, restringindo severamente sua autonomia;
Perda da facilidade de comunicação escrita (livros, jornais, fotografias, não pode ler a própria correspondência, perdendo a reserva pessoal, e impossibilitado também de assinar o próprio nome);
Perda da facilidade da comunicação corporal (postura, gestos, mímica e expressões faciais, não pode ver as reações da pessoa com quem fala);
Perda da visão dos rostos familiares, artes etc;
Restrições em sua recreação (que poderia ajudá-lo na superação da crise);
Perda da obscuridade (não passa mais despercebido na sua rua, por isso muitas vezes rejeita a bengala e qualquer objeto que possa identificá-lo como cego);
Perda da profissão (perde a capacidade de produzir e de sentir-se útil). Perdendo muitas vezes sua segurança financeira, numa fase em que necessita gastar mais com sua reabilitação;
Sendo inúmeras as limitações, uma série de frustrações acompanha uma desorganização na personalidade e na perda da auto-estima.
Mudança do setting
O trabalho com o paciente cego em um relacionamento psicoterapêutico exige que o terapeuta se conscientize de algumas interações especiais, que podem surgir durante o processo, incluindo questões de transferência e contra-transferência. Antes do início da terapia, deve o psicoterapeuta tentar examinar o seu próprio setting quanto ao que ele acredita ser a sua própria atitude diante da cegueira, o que a cegueira significaria para ele, e – especialmente – que experiências ele teve com cegos no passado.
Para Adams (1980), desde o início deve o terapeuta estar disposto a assumir um papel mais ativo. No primeiro contato, na sala de espera, o terapeuta deve anunciar a sua presença em voz alta, e deve estar pronto para tocar o paciente e permitir que este o toque, deixando que ele segure em seu braço com firmeza até ambos estarem sentados no consultório. O terapeuta deve saber que comportamentos como gesticular, ou expressão facial podem estar ausentes ou destorcidos no paciente cego. Ainda: algumas das pistas visuais normalmente utilizadas em terapia podem ter que ser sacrificadas. O terapeuta não pode esperar que o paciente cego reaja a um olhar. Portanto, ele deve aprender a traduzir em palavras estas emoções visuais. O paciente cego pode ter dificuldades com “contato visual” e aparentar não estar vinculado ao terapeuta (quando, na realidade, ele está claramente em harmonia com a sessão). Por outro lado, alguns pacientes mantêm um contato visual tão bom, que o terapeuta pode esquecer que o paciente não possui visão.
Uma parte necessária para a terapia com pessoas cegas é a disposição de se explicar detalhadamente o ambiente. Pode ser, porém, que o terapeuta queira primeiro explorar a fantasia que o paciente tem a respeito do mesmo.
O terapeuta deve lembrar-se que a sua própria curiosidade pode levá-lo a seguir um detalhe que seja de seu interesse, em vez de ser o foco da terapia. (Por exemplo, o paciente deprimido pode descrever como lhe é difícil vestir-se de manhã. O terapeuta pode interessar-se por outros aspectos, e não pela falta de energia ou interesse do paciente). Estas distrações podem ser informativas, mas também prolongam o curso da terapia. De um modo geral, o terapeuta demorar a estabelecer um relacionamento terapêutico com o paciente cego, demora que pode ser reduzida mediante conhecimentos prévios sobre o comportamento dos cegos.
A importância da psicoterapia com estes pacientes torna-se ainda maior se pensarmos no tratamento que a sociedade dava aos cegos no passado. O conhecimento de algumas reações psicológicas, bem como do processo de aceitação da cegueira, é fundamental para que se estabeleça uma relação de sintomas específicos associados ao problema.
O trabalho psicoterapêutico com o deficiente visual pode ser acelerado se o terapeuta estiver disposto a explorar suas próprias reações diante do paciente. Assim estabelecem-se os alicerces para um processo psicoterapêutico ativo que podem facilitar e aprofundar o tratamento.
Apesar da psicoterapia ter que focalizar principalmente os problemas psicológicos do paciente, o psicoterapeuta também deve estar disposto a auxiliá-lo a encontrar um papel mais satisfatório na sociedade, estando atento a habilidades e interesses mencionados pelo paciente antes da perda de visão.
Interação analista x paciente
Conduta no tratamento
A psicanálise em geral acha-se pouco preparada para encarar terapeuticamente soluções de emergência. Alguns profissionais preferem chamá-las de “Psicoterapia de Apoio”. No momento de crise, quando o paciente é levado pela família – pois dificilmente procura espontaneamente o consultório – é inútil para ele outra atitude que não seja encarar o fato atual como o mais importante. Alguma conduta imediata tem que ser adotada.
O estado atual é reflexo de acontecimentos penosos vividos ou fantasiados na infância e que devem ser localizados pelo analista. A fase aguda do momento estaria relacionada a um fato atual, um fator desencadeante de grande intensidade ou a somatização de microtraumas constantes.
Sob o ponto de vista das “instâncias psíquicas” nos encontramos em uma situação em que o id frustrado por um superego rígido, punitivo e ameaçador, pressiona um ego fraco ou enfraquecido cheio de culpabilidade e masoquismo que poderá reagir pondo a agressividade para fora contra o outro ou contra si mesmo até a destruição do self.
Em situações comuns, as “falas” dessas instâncias podem ser encontradas nas emergências, apresentando as tempestades de afetos, com o paciente gritando e amedrontando ao mesmo tempo em que se apresenta como vítima. Ou então o paciente fala ponderadamente, apresentando-se como frio e vazio de afeto, pois está isolado.
A reação do paciente à urgência é imprevisível, e as repressões muito profundas indicam risco de suicídio.
O psicanalista está acostumado a interpretar, mostrar, compreender, etc. Mas no momento da crise, o que pode ser interpretado? O “como”, o “porquê”, o “para quê” ou o “o quê?” Mostrar compreensão sem compreender? Ser dadivoso?
Na verdade há pouco a ser feito, mas também não podemos ficar sem fazer nada. Podemos tentar alguma coisa. Uma delas seria entrar em contato com algum resíduo de Ego sadio mostrando que há finalidade naquela conduta.
Outra possibilidade seria procurar descobrir a situação desencadeante ou frustradora – ou ambas combinadas – e procurar substituir o superego perseguidor por um menos rígido, assumindo conscientemente o papel de um superego auxiliar, mais compreensivo e menos perseguidor.
Dados que devem ser vistos como importantes:
a) É mais fácil entrar em relacionamento com o cliente que pede ajuda espontaneamente;
b) o setting hospitalar pode ser favorecedor.
Já o atendimento em residência ou o fornecimento de dados pela família são fatores muito negativos. Se o cliente não quer falar, ele tem alguma razão para isto, e é melhor que ele não fale do que ouvirmos o que a família tem a dizer sobre ele. Pois o doente pode ser depositório dos aspectos doentes da família que o mantém cronicamente doente.
Há também o sentimento de culpa deslocado e a família pode receber o analista com hostilidade, acusando-o de não ter feito nada.
Basicamente, a intuição é o elemento fundamental da ajuda que o terapeuta pode oferecer na emergência.
Teoricamente :
1. Abrir sua sensibilidade, intuição, identificar-se com o cliente, e se tornar um corpo de ressonância para o inconsciente dele.
2. Usar a inteligência para entender conscientemente o que o inconsciente sentiu; sentir o que liga e o que separa; analisar e sintetizar; diferenciar o essencial do secundário; e tentar compreender e sentir a pessoa dentro da doença.
O terapeuta deve oscilar entre o esquecer e lembrar, a reação intuitiva e o discriminar intelectual, ser um instrumento passivo/ativo sensível e ao mesmo tempo um ouvinte crítico e racional.
Estas condições não podem ser ensinadas. Elas são inerentes a certos tipos de pessoas, e ainda assim, podem não funcionar em determinados momentos.
A personalidade do psicanalista, junto com o conhecimento que ele adquiriu em sua formação, aumenta sua possibilidade de empatia e identificação com o cliente.
Existe emergência e o bom manejo dela depende principalmente de uma capacidade especial do terapeuta que intui a gravidade da situação, tendo apenas como conhecimento que, via de regra, o elemento predominante da emergência é o ódio, a destruição e a vingança.
No início do tratamento, as interpretações são irrelevantes ou podem até mesmo se transformar num insulto. Talvez mais importante do que o conteúdo, em todo caso, sejam os processos dinâmicos que ocorreram tanto em níveis conscientes quanto inconscientes.
Freud, em Psicanálise Silvestre, fala da idéia de que o paciente sofre de uma espécie de ignorância, e que se alguém consegue tirá-lo desse estado dando-lhe informação (sobre a conexão causal da doença com a sua vida etc.) ele deve recuperar-se. O fator patológico não é esse ignorar propriamente, mas está no fundamento dessa ignorância, em suas resistências internas; foram elas que primeiro produziram o ignorar, e são elas que ainda o conservam. A tarefa do tratamento está no combate a essas resistências.
Informar ao paciente aquilo que ele não sabe porque reprimiu é apenas uma das preliminares necessárias ao tratamento. Se o conhecimento acerca do inconsciente fosse tão importante para o paciente como as pessoas sem experiência em psicanálise imaginam, ouvir conferências ou ler livros seria suficiente para curá-los.
Uma vez que a psicanálise não pode abster-se de dar essa informação, Freud prescreve que isto não poderá ser feito antes que duas condições tenham sido satisfeitas: “Primeiro, o paciente deve, através de preparação, ter alcançado ele próprio a proximidade daquilo que ele reprimiu; e, segundo, ele deve ter formado uma ligação (transferência) com o analista para que o seu relacionamento emocional com este possibilite uma nova fuga.
Somente quando essas condições são satisfeitas torna-se possível reconhecer e dominar as resistências que conduziram à repressão e à ignorância. A intervenção psicanalítica, portanto, requer de maneira absoluta um período bastante longo de contato com o paciente.
Destaca também o valor da ignorância, ainda que não sejamos ignorantes. Uma “ignorância cultivada” é a necessidade de se lançar um olhar novo para a situação, de se deixarem de lado modos habituais de olhar para as coisas, de cegar-se para o óbvio e de pensar mais uma vez.
É importante convidar o paciente a falar livremente de seu sentimento, de seu sofrimento, enfim, convidá-lo à associação livre.
A importância de um apoio central, a família, a presença de alguém que possa dar força e suporte para continuar o processo de desenvolvimento na ajuda não das mudanças sonhadas, desejadas, mas possíveis.
Uma atenção cuidadosa à contra-transferência também é necessária.
Nosso envolvimento pode tornar mais difícil a observação cuidadosa. A supervisão pode ser muito útil na ajuda de interferências no relacionamento.
Estudo de caso
De um modo geral, em psicanálise, só recebemos encaminhamento para tratar de pessoas que de alguma forma não conseguiram se adaptar às tensões em suas vidas. Não pretendo apresentar estudo detalhado de casos, mas uma interação entre a teoria e a observação de dois casos bem distintos.
Diferentemente dos casos que estudei, onde o acompanhamento psicológico ocorre simultaneamente ao clínico (como medida preventiva), recebi os pacientes encaminhados pelo Instituto Benjamin Constant (IBC) somente após terem sido esgotadas outras alternativas de ajuda.
Como medida de proteção aos pacientes, pouparei dados pessoais que poderiam identificá-los.
CASO 1
Tratamento: três anos. Beatriz, 59 anos, desquitada, vivendo com companheiro há vários anos, foi encaminhada ao IBC para aprendizado de trabalhos manuais. Só depois de várias faltas às consultas marcadas, convidei-a ao consultório. Então ela pôde comparecer, deixando clara a rejeição ao contato com outros deficientes visuais.
Durante a fase inicial do tratamento, confesso que passei por conflitos, questionando o que eu teria para oferecer àquela paciente que se encontrava em estado de desamparo, desesperança e depressão, com todas as perdas por que passam os pacientes que se tornaram cegos.
Penso que o fundamental para mim foi perceber que ela estava no consultório, falando, escutando e pensando; logo, havia socorro para ela.
A cada frase Beatriz chorava, tossia, se engasgava, sufocava. Eu me via diante de um bebê.
A primeira providência foi a mudança de setting e de horário. Coloquei-a num horário em que me sentisse mais livre se precisasse ultrapassar o tempo da sessão.
Um copo de água mineral fez parte do setting durante aproximadamente dois meses, até que minha colega de consultório observou que a paciente não bebia mais a água.
Aos poucos fui localizando-a no setting, e ela movimentava-se na sala de espera, no banheiro, e ia buscar água. Mas para entrar na minha sala ela apoiava-se em meu braço, alegando que “a passagem tinha muitas portas que ela não sabia abrir sozinha e tinha medo de se machucar”.
A esta altura, o tratamento começou a funcionar, pois a paciente já se encontrava em nível superior de auto-afirmação de suas atividades diárias. A depressão estava controlada com medicação, o que se recusara a usar até então, e também podia se alimentar sozinha.
Durante a depressão, Beatriz passava os dias na cama “embaixo do cobertor”, completamente isolada. Percebi que a depressão estava não só ligada à perda de visão somada a outras perdas, mas também servia para conter a cólera no estreito foco da dificuldade conjugal. Havia o desejo de manter o atual “marido” aposentado como seu enfermeiro, pois dessa forma estaria punindo-o e controlando-o ao mesmo tempo. Sua relação com o marido diferenciava-se das demais (filho, nora, netos) por uma gratificação masoquista. Beatriz estava convencida de que a relação com o marido estaria garantida se continuasse no comando, mesmo “embaixo do cobertor”.
Ao entrar em contato com as perdas, enfrentando o que poderia e o que não poderia ser modificado, passou a funcionar num nível de escolha até então desconhecido. Já podia escolher o caminho para o consultório, quando antes achava que não fazia diferença vir pelo túnel ou pela praia já que “não enxergava nada mesmo”. Também começou a freqüentar o supermercado com uma auxiliar e a escolher a marca dos produtos que queria usar.
Foram muitos momentos difíceis, pois a paciente vivia a esperança de voltar a enxergar. Sem mais possibilidades no Brasil, surge uma esperança nos Estados Unidos. Confesso que nesse momento entrei em estado de mania com a paciente, pois era muito agradável sonhar.
A paciente voltou de viagem sem enxergar. O transplante foi mantido, pois até então havia sempre rejeição, mas o nervo ótico estava completamente lesado.
A tarefa era ajudar no insight, auxiliando a paciente a livrar-se de métodos inúteis de conduta, facilitando a evolução de idéias no sentido de mudança e ajudando-a a suportar a ansiedade e a incerteza do processo de mudanças, não das sonhadas e desejadas, e sim das possíveis.
Sua capacidade de reconhecer um sentido na vida, considerando as atuais limitações, veio através dos netos.
As perdas não foram preenchidas, e a depressão não podia ter desaparecido. Mas acredito que ela tenha encontrado uma forma de “conviver” com elas.Neste caso, “trabalhos manuais” são importantes para quem se interessou por eles em algum momento, mas não teve a oportunidade de realizá-los. Não deve ser uma tarefa imposta, algo que tenha sobrado ao paciente. Hoje, no IBC, há várias opções oferecidas, de informática a marcenaria, mas a escolha é respeitada.
Muitos foram os momentos difíceis que enfrentei, onde ficava clara a angústia. Eu a identificava, mas a interpretação seria de pouco ganho.
São inúmeras as situações de regressão às quais os pacientes graves chegam, onde o analista tem que ter criatividade, pois não cabe, na hora, interpretação. Acredito que o meu trabalho com crianças portadoras de necessidades especiais muito me ajudou nestas situações.
A situação edípica da paciente era bastante comprometida. Expressava um ódio mortal pela mãe, pois dizia que esta só foi mulher para o pai, nunca se importou com os filhos, e acreditava que ela não queria filha mulher. O pai, apesar de ter sua admiração na infância, era sentido por ela como fraco.
Beatriz acabou sofrendo sucessivas cirurgias durante períodos que se prolongaram até 20 meses, sem resultados satisfatórios.
Bem mais tarde esta paciente me foi encaminhada, para desenvolver trabalhos manuais no Instituto Benjamim Constant. Diminuindo as defesas, ela toma conhecimento de quanto contribuiu para o agravamento da doença, e quão pouco cooperou com o tratamento e a equipe médica:
1. Continuou usando as lentes.
2. Misturava ou esquecia a medicação por estar muito ocupada, trabalhando.
3. Não voltou ao médico na data marcada, e fazia peregrinação para confirmar diagnóstico e medicação.
(Este foi o único ponto de igualdade com o caso que apresentarei a seguir, obviamente com diagnóstico diferente.)
Em 1978, a paciente havia sofrido cirurgia para retirada dos ovários (seu primeiro órgão de choque), chegando a fazer quimioterapia. Alegou ter resistido muito bem, pois o câncer não a impediu de trabalhar, e a sua presença era disfarçada. A perda da visão, por outro lado, lhe era impeditiva, imobilizando-a em vários aspectos conforme descrito anteriormente (ver “Reações à perda de visão”).
A paciente segue seu caminho com ajuda, um nível razoável de independência, os ganhos obtidos em relação ao comportamento inicial ao tratamento foram muitos, não resolvendo a perda de visão, mas uma melhor forma para visualizar soluções de seus problemas na reabilitação.
CASO 2
Tratamento: aproximadamente seis meses. Fernando, 43 anos, casado, chegou ao consultório também, acompanhado da esposa, porém com boa mobilidade e perfeito domínio da bengala. Ele já tinha passado pelo IBC e veio encaminhado por profissional da Instituição.
O paciente perdeu a visão num desastre de automóvel em que dirigia completamente alcoolizado, já tendo sofrido outros acidentes pelo mesmo motivo. Tinha consciência de seu alcoolismo e freqüentava o AA, contando com a participação da família nas reuniões.
Longe da depressão e da perda, encontrava-se em quadro que considero “maníaco”, juntamente com todos os que se propuseram a ajudá-lo, pois havia uma total negação por parte do paciente e da família.
A ajuda que recebia da família era comovente em muitas situações, mas em outras era desastrosa, pois o mantinha em grande dependência.
O paciente tinha boa situação financeira, prestígio e era responsável pelo sustento da família, mas após o acidente de carro foi despedido pela empresa. A esposa, que não trabalhava fora, passou a ter o controle das despesas, e o paciente assumiu a função “materna” com os filhos.
As oportunidades de trabalho eram de pouca eficácia e o colocavam sempre em situações que o expunham.
Fernando não falava de suas perdas, limitando as sessões ao desejo de vencer a barreira financeira. Entendia a dificuldade que sentia na perda do seu papel de provedor ativo para passivo, e a competição com a esposa. No nosso contrato combinamos que não o receberia alcoolizado, pois ele pouco poderia aproveitar do tratamento. Respeitava, em tese, mas quando bebia usava a secretária eletrônica ou telefonava para a minha casa em horários impróprios.
Eu nunca soube detalhes do acidente, pois ele começava a contar várias vezes, mas mudava de assunto. Tentei mostrar que a situação deveria ter sido muito difícil, pois parecia que ele tinha medo de falar, como se fosse vivê-la novamente.
O paciente ficou pouco tempo e não senti nenhuma mudança. Interrompeu o tratamento alegando que as filhas e a mulher estavam precisando de tratamento dentário, que ortodontia era muito caro mas que elas precisavam da correção.
Tentei mostrar que ele acreditava que para as filhas havia correção, mas era como se ele imaginasse que eu não poderia fazer mais nada para melhorar o seu estado. A esposa também veio falar sobre o pagamento, não podendo experimentar uma nova visão da vida, pois havia uma dificuldade maior dele se tratar. Embora para esses casos eu tenha uma disposição para o pagamento simbólico.
Nos dois casos apresentados, acredito que se esses pacientes tivessem sido encaminhados para tratamento psicológico, quando o quadro clínico começou a complicar, talvez pudessem ter se conscientizado de uma maior cooperação no diagnóstico e no tratamento.
Assim como Beatriz, Fernando não perdeu a visão de imediato; havia um quadro de tratamento. Imagino que estas perdas devem acontecer não só com a visão, mas com outros órgãos, com grande participação do paciente. Sempre existe uma outra ocorrência grave como pano de fundo, onde a doença sempre traz um ganho, ainda que secundário.
Fatores importantes para a reabilitação
Os autores pesquisados falam que uma boa reabilitação do paciente e que a ausência de maiores distúrbios afetivos podem ser atribuídos ao cuidado recebido no início da ocorrência e no hospital, ao apoio da família, à sua personalidade saudável e, principalmente, à sua visão otimista da vida.
Pacientes abertos a mudanças e envolvimentos e que encaram a mudança como um desafio e não como uma ameaça também apresentam boa recuperação.
Há pessoa ajustada, adaptada a “verdade” segundo as necessidades da situação, enquanto que o desajustado mantém-se no “erro” inicial mesmo quando este já não lhe oferece nenhum ganho.
A capacidade de reconhecer um sentido na vida considerando as atuais limitações ajuda na reabilitação a obter uma satisfação interna que é impossível diante de um questionamento intelectual.
A reabilitação dependerá de vários fatores:
da estrutura do ego;
do nível de frustração que o paciente é capaz de suportar;
da quantidade de limitações que a cegueira lhe impõe (ex. grau de necessidade de visão em sua vida profissional);
da reação do grupo familiar;
do tipo predominante de caráter: marcado pela dependência ou sado-masoquista, que se satisfaz com a cegueira;
das realizações do paciente em sua vida até o momento da perda;
da sua estabilidade emocional;
das responsabilidades antes da perda de visão;
da faixa etária do paciente.
Pontos negativos para a reabilitação:- Sabe-se que a falsa esperança não só atrasa como impede a reabilitação. A ajuda da família com relacionamento “excessivo” e “desmedido” provoca um comportamento regressivo, permanecendo a dependência do paciente.
Conclusão
Embora a psicanálise esteja hoje bem difundida na mídia e no âmbito cultural, encontra-se ainda muito isolada e distante do trabalho da equipe médica.Este trabalho reflete minha convicção de que muito pode ser feito na área oftalmológica, e o meu desejo por uma psicanálise dinâmica, aplicada, que se aventure ou que volte (como o fez Freud em 1885, quando ao pesquisar perturbações histéricas da visão, estagiou durante três meses em oftalmologia em Viena) para a área institucional numa atuação multidisciplinar. São vários os níveis em que a psicanálise pode atuar: preventivo, terapêutico, de reabilitação e profissionalizante, sempre auxiliando o indivíduo e a instituição a funcionarem melhor.
Não pretendo esgotar o tema, pois estou apenas iniciando o estudo e pretendo continuar refletindo, já que sinto que ele é muito rico e não se aplica apenas a pacientes com perda de visão.
Concluo o trabalho consciente da minha “cegueira” para muitos aspectos desconhecidos da teoria e da prática. Espero, no entanto, continuar com o desejo e a curiosidade para sempre considerar um ângulo novo nas coisas que não conheço, aprofundar minha intuição em busca da compreensão e fugir da tentação e do perigo de aprender a ver, ficando assim impossibilitada de ver o novo.
Maria Cristina de Castro Barczinski - Membro associado da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro e trabalha como psicóloga voluntária no Instituto Benjamin Constant.Fim da Página Site Desenvolvido pela Acessibilidade Brasil 2005 | www.acessobrasil.org.brAtalhos de Navegação Início da Página (alt+i)Busca no Site (alt+b)Onde Estou? (alt+o)Menu Principal (alt+m)Conteúdo do Site (alt+c)
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